
O que cidades devem exigir antes de aprovar um novo data center de IA
Aumento de 24% na conta de luz em uma cidade americana reacende debate sobre zoneamento, água e energia antes de autorizar novos data centers de IA.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
A conta chega para o morador
Pra quem mora perto, a pergunta é simples: quanto isso vai custar na minha conta de luz? Em Aurora, no estado americano de Illinois, a resposta já apareceu na fatura — as tarifas de energia subiram 24% em 2025, alta que moradores e autoridades locais atribuem à chegada de data centers de inteligência artificial na região. Um levantamento do Fed de Dallas mostra que data centers já elevaram entre 2% e 6% o preço da eletricidade no atacado nos Estados Unidos, projeção que pode chegar a 20%-30% até 2028. Cidades como Baltimore (alta de US$ 17 por mês na conta média) e municípios de Nova Jersey (aumento de 20% em 2025) já sentem o efeito. Mais de 300 cidades e condados americanos já aprovaram proibições ou moratórias para data centers de hiperescala, e o estado de Nova York decretou moratória em julho.
Zoneamento não pensado para isso
Um levantamento da Smart Cities Dive mostra que boa parte das cidades trata data centers como armazéns genéricos na hora de aprovar projetos — mesma categoria de zoneamento usada para um galpão logístico qualquer. Aurora só criou uma definição formal para "data center" em 2026. Anchorage, no Alasca, resolveu diferenciar instalações do tamanho de um closet das que ocupam área maior que um Walmart, com regras distintas para cada porte. A recomendação de urbanistas ouvidos pela publicação é mudar a categoria de "by-right" (aprovação automática) para "special use" (uso especial, com análise caso a caso) antes de autorizar novos projetos.
Água, energia e quem fiscaliza
Além da conta de luz, o outro ponto que as prefeituras precisam calcular é o consumo de água usado no resfriamento dos servidores — em Aurora, autoridades já classificam o recurso como "cada vez mais escasso". A recomendação é exigir planos detalhados sobre produtos químicos de resfriamento, descarte de efluentes e monitoramento de contaminantes como PFAS, além de comprovação de que a concessionária de energia consegue atender a nova demanda sem repassar o custo ao consumidor comum — o que motivou nos EUA a proposta de lei conhecida como "POWER Act", que obrigaria data centers a pagar pela própria energia renovável.
A palavra final é da comunidade
Segundo pesquisa citada pela pesquisadora Lauren Bridges, da Universidade da Virgínia, mais de 70% dos moradores nos EUA — de diferentes posições políticas — se opõem à instalação de data centers de IA perto de casa. Em Aurora, a prefeitura só fechou a nova política depois de uma sessão pública com cerca de 200 moradores, pesquisa online, reuniões de bairro e um segundo fórum para revisar a proposta após as críticas recebidas. O recado para outras cidades, incluindo as brasileiras que já disputam a instalação de data centers de IA: regulamentar antes, não depois.