
O que faz o Kilauea jorrar lava em fontes de até 480 metros
Um estudo publicado na Science mapeou 54 episódios de fontes de lava no vulcão havaiano desde dezembro de 2024 e aponta um reservatório de magma raso como motor do fenômeno. Antes de cada jato, o solo da caldeira já dava sinais claros de que algo vinha pela frente.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
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É mais ou menos isso que o Observatório de Vulcões do Havaí (HVO), braço do US Geological Survey (USGS), vem registrando no cume do Kilauea antes de cada novo episódio de fontes de lava. O solo da caldeira Kaluapele incha lentamente entre um episódio e outro — e depois desaba de forma abrupta assim que a lava começa a jorrar.
O que está confirmado
Desde 23 de dezembro de 2024, o Kilauea entrou numa sequência que, até setembro de 2026, já somava 54 episódios de fontes de lava — a maior contagem já registrada numa única erupção do vulcão, segundo um estudo publicado na revista científica Science por A. F. Flinders e colegas do HVO. Antes desse ciclo, sequências repetidas desse tipo só tinham sido vistas três vezes desde 1823.
A maioria das fontes chegou a cerca de 100 metros de altura, mas os picos mais extremos ultrapassaram os 450 metros — o estudo cita um valor próximo de 480 metros, e fragmentos de rocha vulcânica chegaram a ser arrastados por até 70 quilômetros.
Para chegar às conclusões, a equipe cruzou dados de deformação do solo, sismômetros, sensores de som de baixa frequência, medições de gases vulcânicos, imagens de satélite e câmeras dos primeiros 39 episódios, além de analisar a composição química da rocha e do vidro vulcânico expelidos.
O mecanismo por trás do espetáculo
O padrão identificado é consistente: o cume se expande devagar entre um episódio e outro, à medida que magma recarrega um reservatório relativamente raso sob a superfície, e desincha rapidamente no momento em que a fonte de lava entra em erupção. Os cientistas comparam o papel dos gases presos no magma a um pistão de motor — eles empurram o material para cima e para baixo através de condutos estreitos do vulcão.
As fontes voltavam a começar perto de limiares de inclinação do solo (o chamado "tilt") que mudavam gradualmente de episódio para episódio, o que permitiu à equipe do HVO montar previsões de janelas de erupção para alertar moradores e funcionários do parque.
O que ainda é hipótese
Uma pergunta em aberto era se o gatilho das fontes vinha de bolhas de água liberadas perto da superfície ou do colapso de uma espuma rica em dióxido de carbono vinda de camadas mais profundas do magma. As observações preliminares de gases, segundo o estudo, favorecem a primeira explicação — mas os próprios autores tratam isso como um indício, não uma conclusão fechada, e dizem que o monitoramento contínuo ainda vai ajudar a entender melhor como a pressão do reservatório e a conectividade dos condutos produzem esse tipo de erupção intermitente.
Vale o alerta: segundo notícias recentes do próprio USGS, desde o episódio 54, em 25 de agosto de 2026, o padrão de deformação do solo ficou irregular, e a agência afirma não conseguir mais prever com segurança quando viria o próximo episódio — um sinal de que o modelo, embora robusto, não é garantia de acerto automático.