
O que faz uma adaptação de videogame funcionar (e por que tantas falham)
The Last of Us provou que dá para respeitar o jogo original sem engessar a história, mas décadas de Double Dragon, Super Mario Bros e Mortal Kombat mostram como Hollywood insistiu em errar essa conta. Entenda a linha tênue entre fidelidade e reinvenção.
Por Théo Ramos · Repórter de Games
A ferida que toda comunidade gamer carrega
Quem joga há tempo o suficiente sabe a sensação: anunciam um filme ou série baseado no seu jogo favorito e o estômago já embrulha. Não é paranoia gratuita. É histórico. Hollywood passou boa parte dos anos 1990 tratando videogame como matéria-prima descartável, e o resultado foram pérolas constrangedoras como Double Dragon, Street Fighter e Super Mario Bros, todas de uma época em que, segundo análise da Canaltech, o próprio Hollywood "não compreendia os videogames". Não era falta de orçamento — era falta de entendimento do que fazia aquelas obras serem amadas.
Fidelidade não é cópia, é entender a alma do jogo
Foto: reprodução/winteriscoming.net
O erro mais repetido não foi ignorar o material-fonte, foi copiá-lo errado. Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City (2021) tentou ser fiel nos cenários e personagens, levou até elogio de fãs mais puristas no papel, mas virou o que a própria Capcom, uma das maiores produtoras japonesas de videogames, tratou com galhofa nas redes, porque fidelidade de cenário não substitui tensão, ritmo e peso dramático. Mortal Kombat (2021) cometeu o erro inverso: inventou personagens e tramas que o jogo nunca pediu, perdendo de vista o que torna os torneios e os golpes finais tão queridos pela galera que cresceu jogando. Borderlands e Monster Hunter, para a Canaltech, nem chance tiveram.
O contraponto que a comunidade gamer finalmente comemorou veio com The Last of Us, da HBO. O próprio criador do jogo participou da produção, o que ajudou a manter o peso emocional de Joel e Ellie intacto enquanto a série ousava expandir histórias secundárias, como a do episódio "Long, Long Time", sem trair o espírito do original. É basicamente o que também vem sendo visto em Arcane, que tratou o universo de League of Legends como matéria para uma tragédia grega sem desrespeitar a lore, e em Castlevania, que acrescentou camadas sem descaracterizar a base.
Quando acham a fórmula — e por que ela não se repete
O Resident Evil dirigido por Zach Cregger é citado como a adaptação "mais bem-avaliada de todos os tempos" justamente por temperar a narrativa clássica com elementos novos sem abandonar o que fãs de longa data reconhecem como a essência da franquia. Detetive Pikachu e Sonic the Hedgehog também acertaram ao adaptar visuais para funcionar com atores de carne e osso sem perder a cara dos personagens — Sonic, inclusive, só engatou depois de um redesenho forçado pela pressão da própria comunidade.
Mas Hollywood ainda tropeça num ponto: sucesso de temporada 1 não garante temporada 2. A própria The Last of Us viu sua segunda leva de episódios dividir opiniões, assim como Fallout, The Witcher e Halo, prova de que entender a alma de um jogo uma vez não é fórmula garantida para sempre. Para quem joga, a lição é simples: cada franquia pede um approach próprio, e maratonar fidelidade cega ou liberdade criativa sem bússola são dois jeitos igualmente certos de decepcionar quem conhece o material original de cor.