
O que sobrou das bandeiras que os astronautas deixaram na Lua
Imagens do orbitador LRO da NASA mostram que três das seis bandeiras plantadas pelas missões Apollo ainda estão de pé — mas décadas de radiação ultravioleta devem tê-las deixado brancas e o tecido, quebradiço.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Imagine plantar uma bandeira de náilon no quintal de casa e esquecê-la lá por mais de 50 anos, sem chuva pra lavar a poeira, sem ar pra amortecer o sol e com temperaturas que vão de quase 120°C a -173°C, dia após dia. É mais ou menos o experimento involuntário que a NASA tem acompanhado desde 1969 na superfície da Lua, onde astronautas das missões Apollo cravaram seis bandeiras dos Estados Unidos.
O que as imagens do LRO confirmam
Foto: reprodução/olhardigital.com.br
Das seis bandeiras — deixadas pelas Apollo 11, 12, 14, 15, 16 e 17 —, o Lunar Reconnaissance Orbiter (LRO), sonda da NASA em órbita lunar desde 2009, conseguiu confirmar que três continuam de pé. A câmera LROC registrou sombras compatíveis com as hastes das bandeiras das missões Apollo 12, 16 e 17 em sequências de imagens feitas sob diferentes ângulos de iluminação solar.
A bandeira da Apollo 11 é o único caso sem dúvida: o próprio Buzz Aldrin relatou, na hora, tê-la visto cair, derrubada pelo jato do motor do módulo de ascensão durante a decolagem de volta à órbita.
O que ainda é hipótese
Já as bandeiras da Apollo 14 e da Apollo 15 ficam na zona cinzenta. Não há, até agora, sombra identificável nelas nas imagens do LRO — o que não prova que caíram, apenas que a evidência disponível não é conclusiva. A hipótese mais aceita pelos pesquisadores é a de degradação severa: sem atmosfera para filtrar a radiação ultravioleta, o náilon das bandeiras deve ter perdido as cores vermelha e azul rapidamente, restando um pano essencialmente branco. Some a isso os ciclos térmicos extremos da Lua e o bombardeio de micrometeoritos, e o resultado esperado é um tecido quebradiço — a ponto de pesquisadores considerarem possível que as bandeiras das Apollo 14 e 15 tenham se desintegrado.
Por que isso importa
O acompanhamento remoto dessas bandeiras é hoje o principal registro visual disponível dos sítios de pouso Apollo, e alimenta diretamente o planejamento de futuras missões humanas à Lua, como o programa Artemis, que vai lidar com o mesmo ambiente hostil de radiação e temperatura.