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IACiência01 de nov. de 2026, 22:02

O reitor que caçou cola por IA e foi pego usando IA nos próprios textos

Santiago Schnell, reitor acadêmico da Dartmouth College, renunciou após um comitê concluir que ele usou IA para alterar textos próprios sem avisar — inclusive um artigo sobre cola de estudantes.

Por Elias Brandão · Analista de IA e ética

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Uma ironia didática

Imagine o fiscal de prova sendo pego colando. É mais ou menos o que aconteceu na Dartmouth College, uma das universidades da Ivy League nos Estados Unidos. Santiago Schnell, o provost da instituição — cargo equivalente ao de um vice-reitor acadêmico, responsável por zelar pelo rigor do ensino — escreveu em agosto um artigo de opinião no Washington Post alertando sobre o uso de IA por estudantes para colar em trabalhos.

O problema é que o próprio texto, segundo a revista Semafor, foi analisado pela ferramenta de detecção Pangram e apontado como 100% escrito por inteligência artificial. Não parou aí: o jornal estudantil The Dartmouth testou outros textos acadêmicos publicados por Schnell em 2026 e encontrou uma mediana de 96% de conteúdo identificado como gerado por IA.

Quando o jargão vira problema real

Para quem não vive o dia a dia acadêmico, vale traduzir: universidades têm regras de integridade que exigem que um autor avise quando usa ferramentas de IA para redigir ou alterar substancialmente um texto — algo parecido com citar uma fonte. A presidente da Dartmouth, Sian Leah Beilock, montou um comitê independente com cinco professores de áreas como ciência da computação e linguística para investigar o caso.

A conclusão do comitê foi dura: Schnell "usou IA para alterar significativamente sua escrita" e não foi transparente sobre isso, violando o próprio código de conduta ética da universidade. Ele chegou a entregar o notebook institucional aos investigadores, mas não repassou os registros de uso de contas pessoais de IA, e recusou reunião com o comitê — atitude que pesou contra ele.

Os dois lados da história

Schnell se defende dizendo que usou ferramentas como o ChatGPT apenas para refinar linguagem, organizar argumentos e deixar o texto mais claro — não para criar as ideias, que seriam dele. É uma linha tênue: hoje praticamente todo profissional usa algum assistente de IA para polir um e-mail ou um relatório. A questão que fica é onde termina a "revisão de texto" e começa a "autoria emprestada".

De qualquer forma, o estrago institucional foi feito: um reitor que cobrava transparência de estudantes caiu justamente por falta dela. Schnell renunciou ao cargo em 28 de outubro, após pouco mais de um ano na função.

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