tech & talk
Ciência01 de set. de 2026, 11:20

O truque do beija-flor para não morrer de fome durante a noite

Para sobreviver à própria velocidade metabólica, o beija-flor entra todas as noites num estado de torpor que derruba batimentos cardíacos e temperatura corporal. Um estudo já registrou 3,26°C em um exemplar andino.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

Compartilhar

Pra escala humana: imagine que seu coração dispare para mais de mil batimentos por minuto só para você se manter em pé — e que, à noite, sem essa aceleração toda, você simplesmente não tivesse energia guardada para sobreviver até o café da manhã. É basicamente esse o aperto que o beija-flor vive todos os dias.

Um motor que não pode parar (mas precisa)

O beija-flor tem o metabolismo mais acelerado entre os vertebrados terrestres. As asas batem entre 50 e 80 vezes por segundo, o coração passa de mil batimentos por minuto em voo e o consumo de oxigênio chega a ser dez vezes maior que o de um atleta humano no pico do esforço. Durante o dia, a temperatura corporal fica em torno de 40°C.

Foto: reprodução/greensavers.sapo.pt

O problema é o preço dessa velocidade: o beija-flor não consegue armazenar gordura suficiente ao longo do dia para bancar essa fornalha metabólica a noite inteira. É aí que entra o torpor — um estado parecido com hibernação, mas que dura só algumas horas, todas as noites.

O que é confirmado

No torpor, os batimentos cardíacos do beija-flor despencam para cerca de 40 por minuto e a queda no metabolismo chega a 95%. É um mecanismo bem documentado em várias espécies da família Trochilidae, incluindo as cerca de 80 espécies (de um total de 320 conhecidas) que ocorrem no Brasil.

O que a ciência ainda está detalhando

Um estudo publicado na revista Biology Letters, conduzido por pesquisadores da Universidade do Novo México (EUA) e da Universidade de Pretória (África do Sul), mediu beija-flores dos Andes peruanos em grande altitude e registrou uma temperatura corporal de 3,26°C em um dos espécimes — a mais baixa já medida em uma ave ou mamífero não hibernante.

O grau de variação entre espécies e até entre indivíduos ainda é objeto de investigação: nem todo beija-flor entra em torpor com a mesma intensidade.

Por que isso importa

O torpor não é uma curiosidade isolada: é a diferença entre o beija-flor amanhecer vivo ou não. Sem esse desligamento parcial e temporário do próprio corpo, a ave gastaria mais energia do que conseguiria repor.

beija-flortorpormetabolismobiologiaaves
Compartilhar