
Onda de Kelvin rumo à Califórnia: o que é real e o que é exagero
Uma onda planetária ligada ao El Niño atingiu a América do Sul e segue para a costa da Califórnia, mas cientistas dizem que o fenômeno é conhecido e não é o pesadelo que manchetes alarmistas sugerem.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: imagine um pulso de água morna, largo como uma faixa de 30 quilômetros, deslizando devagar ao longo de toda a costa oeste das Américas
É mais ou menos isso que está em jogo na onda que atingiu a ponta norte da América do Sul no fim de agosto e que, segundo o site de tecnologia americano The Verge, deve chegar à costa da Califórnia nos próximos dias. Chamam de "onda planetária" porque sua escala é mesmo continental — mas não é um tsunami, não vem como parede de água e não é, como algumas manchetes sugeriram, um fenômeno bizarro e desconhecido.
O que é confirmado
Foto: reprodução/gizmodo.com
Trata-se de uma onda de Kelvin, mecanismo oceânico associado ao El Niño, o padrão climático cíclico que aquece as águas do Pacífico equatorial. Quando os ventos alísios — que normalmente empurram água quente do leste para o oeste do Pacífico — enfraquecem ou se invertem, parte dessa água acumulada passa a se deslocar para leste, em direção à América Central e do Sul. Ao encontrar o continente, ela não tem para onde ir e se desvia para norte e sul, formando o que os oceanógrafos chamam de onda costeira aprisionada. Esse mecanismo já foi documentado por veículos como a revista National Geographic e o site especializado em esportes aquáticos The Inertia, que também acompanham o fenômeno.
O efeito prático é a elevação temporária do nível do mar — estimada em até um pé (cerca de 30 centímetros) ao longo da costa californiana — por causa da expansão térmica da própria água aquecida, não por acúmulo de volume. O governador da Califórnia, Gavin Newsom, já declarou estado de emergência no estado americano no fim de setembro, citando risco de enchentes e deslizamentos.
O que é hipótese ou exagero
Ondas de Kelvin não são incomuns: costumam ocorrer entre cinco e seis vezes durante um único episódio de El Niño, segundo reportagens que acompanham oceanógrafos americanos. O que chama atenção desta vez é o momento: a onda chega com o oceano já aquecido e a costa californiana ainda sensível à erosão causada por ressacas recentes, como as provocadas pelo furacão Marie em setembro. Ou seja, o risco está mais na combinação de fatores do que no fenômeno em si, que é estudado há décadas.
Não há, até o momento, qualquer evidência de que esta onda específica seja atipicamente mais forte do que outras já registradas em eventos anteriores de El Niño — a atenção da mídia é que é desproporcional ao fenômeno.