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Ciência23 de out. de 2026, 10:16

ONU admite que meta de 1,5ºC vai ser superada e aposta em remoção de carbono

Relatório da ONU prevê pico de até 1,8ºC antes de a temperatura recuar — a primeira vez que o órgão reconhece a meta de Paris como inatingível no prazo.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana

Pensa num carro que não consegue mais frear antes do sinal fechar: o motorista já sabe que vai passar do ponto, a única dúvida é quanto. É mais ou menos esse o recado do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Unep): pela primeira vez, a ONU admite, em relatório publicado em outubro, que o mundo vai romper a meta de limitar o aquecimento global a 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais — e que isso é, nas palavras do próprio relatório, "iminente e inevitável".

O que está confirmado

Mantidos os compromissos climáticos atuais dos países, a trajetória leva a cerca de 2,6ºC de aquecimento até 2100. O cenário considerado mais viável agora — chamado de overshoot, peak and decline — é deixar a temperatura global ultrapassar a meta, atingindo um pico entre 1,7ºC e 1,8ºC por volta de meados do século, para só depois recuar a 1,5ºC ou menos até 2100. A chance de sucesso desse plano, segundo o relatório, é de cerca de 50%.

O que ainda é hipótese

Chegar lá depende de cortar emissões de gases-estufa em 18% até 2030, 45% até 2035 e 69% até 2040 (todos em relação a 2025), além de zerar as emissões líquidas de CO2 em meados do século. A parte mais incerta é a remoção de carbono da atmosfera em escala industrial — por reflorestamento e por tecnologias de captura e armazenamento —, que precisaria crescer de forma inédita ao longo deste século. O próprio Unep reconhece não ter certeza se isso é tecnicamente viável: mesmo zerando as emissões líquidas de CO2, a capacidade estimada de armazenamento em bacias sedimentares poderia se esgotar já em 2200.

O estudo

Os números vêm do Emissions Gap Report 2026 e do relatório técnico complementar "Limiting Overshoot", ambos do Unep, divulgados pouco antes da COP31.

O que falta responder

O relatório não diz quem vai pagar pela escala de remoção de carbono necessária, nem se as tecnologias de captura vão evoluir rápido o suficiente para cumprir o cronograma proposto.

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