
OpenAI abandona sigilo com prefeitos em projetos de data center
Após a derrota eleitoral de projetos de data center em referendos locais nos EUA, a OpenAI anunciou que vai parar de usar acordos de confidencialidade amplos com autoridades públicas ao negociar novas instalações.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Em bom português: o que é um NDA
NDA é a sigla para non-disclosure agreement, ou acordo de confidencialidade — em bom português, é aquele papel que você assina prometendo não contar pra ninguém o que combinou com a outra parte. É comum em negócios entre empresas, mas a OpenAI, criadora do ChatGPT, vinha usando esse tipo de acordo também com prefeitos, conselhos municipais e autoridades de desenvolvimento econômico nos Estados Unidos, antes de instalar um novo data center na região. Na prática, o nome real da empresa por trás do projeto ficava em segredo, tratado por codinome em documentos públicos, e os termos do negócio — incentivos fiscais, prazos, uso de energia — só eram revelados depois que as decisões já estavam tomadas.
Um caso virou símbolo dessa prática: em Effingham County, na Geórgia, a autoridade local de desenvolvimento negociou por meses sob um NDA assinado em outubro de 2025 e vendeu cerca de 1.440 acres de terra a uma afiliada da OpenAI, sem votação pública sobre os termos, enquanto o projeto era conhecido apenas pelo codinome "Project Gateway". Um grupo de conservação ambiental e cinco moradores processaram as autoridades locais por suposta violação das leis de transparência do estado.
A virada depois das urnas
Agora a OpenAI anuncia que vai recuar dessa prática. Segundo reportagem do site americano The Verge, a empresa afirmou que não vai mais usar NDAs amplos com autoridades públicas ao negociar novos data centers — o sigilo passa a valer só para "proteções estreitas cobrindo informações de segurança legítimas, segredos comerciais ou informações proprietárias ou competitivamente sensíveis", e não mais para o projeto como um todo. A companhia também prometeu pagar o custo integral de energia e infraestrutura elétrica dos campi que possui e opera, e publicar relatórios sobre contratação local.
A mudança vem dois dias depois das eleições de 3 de novembro, nas quais eleitores de pelo menos 10 estados dos EUA rejeitaram ou restringiram a construção de data centers em referendos locais — de 41 medidas relacionadas ao tema na cédula, a imensa maioria terminou em derrota para os projetos de expansão. A Amazon já havia anunciado medida parecida em outubro.
Os dois lados seguem em campos opostos: comunidades querem transparência e voz antes que o contrato esteja fechado; a OpenAI depende de expansão rápida de data centers para sustentar o crescimento de seus modelos de IA e não quer que a resistência popular vire obstáculo nacional — temor que, segundo a imprensa americana, inclui a preocupação de que o tema pese na eleição presidencial de 2028. Trocar sigilo por transparência é, para a empresa, uma forma de continuar crescendo sem repetir o erro de Effingham.