
OpenAI cria conselho de matemáticos, mas mantém o pé no acelerador
Após carta de 27 medalhistas Fields, OpenAI formou um grupo consultivo de nove matemáticos para revisar seus anúncios — mas garantiu que ninguém vai pisar no freio da empresa.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Um conselho consultivo, não um conselho fiscal
Imagine contratar um revisor só para apontar erros de português no seu texto, mas proibi-lo de mudar o prazo de entrega. É mais ou menos esse o acordo que a OpenAI, dona do ChatGPT, fechou com a comunidade matemática. Em 21 de setembro, a empresa anunciou — em um post convidado no blog do matemático australiano Terence Tao, um dos nomes mais respeitados da área — a criação do Advisory Group on Mathematics and Artificial Intelligence (AGMAI), grupo hospedado no Institute for Advanced Study, o centro de pesquisa em Princeton que já abrigou Einstein.
O grupo reúne nove pesquisadores de peso: François Charles, Camillo De Lellis, Timothy Gowers, Martin Hairer, Nikhil Srivastava, Ulrike Tillmann, Ravi Vakil, Edward Witten e Melanie Matchett Wood. Em bom português: é um time de peso pesado, mas com um detalhe importante no contrato — a própria OpenAI deixou escrito que o grupo "não será responsável por aconselhar sobre o ritmo do nosso progresso interno em matemática". Ou seja, os matemáticos podem opinar sobre como os resultados são anunciados, mas não sobre quando.
De onde veio o incêndio
A criação do AGMAI não surgiu do nada. Dez dias antes, em 11 de setembro, uma carta aberta intitulada "A Severe Misalignment of AI in Mathematics" reuniu 27 medalhistas Fields — a principal premiação da matemática mundial, equivalente a um Nobel da área — incluindo o próprio Terence Tao, Peter Scholze e Maryna Viazovska. O texto alertava que laboratórios de IA perseguindo anúncios grandiosos de "provas matemáticas históricas" ameaçam a integridade do trabalho acadêmico.
O estopim mais recente foi a divulgação apressada de uma suposta solução para o problema de Navier-Stokes, um dos sete Problemas do Milênio — desafios matemáticos com prêmio de US$ 1 milhão cada, dos quais só um foi resolvido até hoje. A OpenAI também afirma que um modelo interno, ainda não divulgado publicamente, resolveu mais de 100 problemas matemáticos em aberto, número que a própria empresa reconhece ser difícil de verificar rapidamente.
Desconfiança que vem de antes
Essa tensão tem histórico. Em 2025, veio à tona que a OpenAI financiou secretamente o FrontierMath, um banco de questões difíceis de matemática criado pela Epoch AI, organização independente dedicada a avaliar o desempenho de sistemas de IA. Dezenas de matemáticos foram pagos, em geral entre US$ 300 e US$ 1.000, para contribuir com problemas sem saber que a OpenAI financiava o projeto e teria acesso antecipado às respostas — o que gerou dúvidas sobre a lisura dos resultados que a empresa depois divulgou como recorde em benchmarks.
É nesse contexto que a reação dos próprios integrantes do novo grupo soa morna. Martin Hairer, professor no Imperial College London e na EPFL, confirmou que o AGMAI não recebe financiamento da OpenAI, mas foi direto sobre o anúncio de fundação: "a forma como frasearam o anúncio não ajudou muito". Não é bem um elogio — nem uma condenação.