
OpenAI cria conselho de matemáticos, mas sem poder de veto sobre sua IA
A empresa por trás do ChatGPT anunciou um grupo consultivo de matemáticos após afirmar que seus modelos resolveram mais de 100 problemas em aberto. O grupo pode opinar, mas não pode pedir para a OpenAI pisar no freio.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Um conselho consultivo, não um freio de mão
A OpenAI, criadora do ChatGPT, anunciou nesta segunda-feira (21) a formação do Advisory Group on Mathematics and Artificial Intelligence, um grupo de nove matemáticos de peso — entre eles Timothy Gowers, Edward Witten e Melanie Matchett Wood — que vai funcionar como uma espécie de ponte entre a empresa e a comunidade acadêmica. O grupo está sediado no Institute for Advanced Study, em Princeton (Nova Jersey), a mesma instituição que já abrigou Albert Einstein.
Em bom português: é um comitê de notáveis para avaliar e ajudar a divulgar resultados matemáticos gerados por inteligência artificial — mas sem poder de mando. A própria OpenAI foi explícita: o grupo "não será responsável por aconselhar sobre o ritmo do nosso progresso interno em matemática". É como contratar um conselho de bombeiros experientes para avaliar o incêndio depois que ele já foi apagado, não para decidir se a fábrica deve continuar operando.
Foto: reprodução/cnn.com
O estopim: um problema de US$ 1 milhão
O anúncio não vem isolado. No início de setembro, a OpenAI afirmou que um modelo interno, usando cerca de 10 mil agentes de IA trabalhando em paralelo, resolveu em 88 horas o problema de Navier-Stokes — um dos seis problemas do Millennium Prize, premiados historicamente em US$ 1 milhão pelo Clay Mathematics Institute. A empresa disse não pretender reivindicar o prêmio, mas o caso gerou controvérsia: pesquisadores ligados à Anthropic, concorrente direta da OpenAI no mercado de IA, e à Universidade de Nova York alegaram que trabalhavam em resultado semelhante e que informações sobre seu progresso podem ter vazado para a OpenAI antes do anúncio.
Matemáticos divididos
Dez dias depois do caso Navier-Stokes, 25 medalhistas Fields — a principal láurea da matemática mundial — assinaram uma carta aberta alertando para um "desalinhamento severo" entre o avanço da IA e as normas da produção matemática, citando risco à autoria e ao crédito científico. Curiosamente, dos nove nomes escolhidos pela OpenAI para seu novo conselho, apenas Camillo De Lellis, também do Institute for Advanced Study, assinou aquela carta.
Números que a OpenAI não provou publicamente
Junto ao anúncio do conselho, a empresa afirmou que seus sistemas resolveram mais de 100 problemas em aberto adicionais, em praticamente todas as áreas da matemática, além do caso Navier-Stokes. É uma alegação e tanto — e caberá justamente a esse novo grupo, sem poder de veto, ajudar a comunidade a separar o que é avanço real do que é hype de lançamento.