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IACiência10 de set. de 2026, 01:33Atualizada em 10 de set. de 2026, 04:02

OpenAI diz ter resolvido equação centenária, mas nem tudo é festa

A empresa afirma ter usado exércitos de agentes de IA para atacar as equações de Navier-Stokes, um dos Problemas do Milênio. Só que a própria OpenAI evita cravar vitória total — e a comunidade matemática também.

Por Elias Brandão · Analista de IA e ética

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Mil robôs atacando uma equação de 200 anos

Em bom português: a OpenAI colocou uma pequena multidão de agentes de inteligência artificial — mais de mil, segundo a empresa, trabalhando ininterruptamente por dezenas de horas — para tentar furar um dos problemas mais teimosos da matemática: as equações de Navier-Stokes, que descrevem o comportamento de fluidos e foram formuladas há cerca de 200 anos. O resultado foi uma prova matemática formalizada na linguagem de programação Lean, uma espécie de compilador que verifica se cada passo lógico de uma demonstração realmente se sustenta.

O problema pertence à lista dos Problemas do Milênio, sete desafios definidos pelo Clay Mathematics Institute no início dos anos 2000, cada um com prêmio de US$ 1 milhão para quem resolver. É como se a matemática tivesse seu próprio hall de problemas "impossíveis" — e a OpenAI diz ter riscado um deles do quadro.

A letra miúda que ninguém quer ler

Aqui é onde entra meu ceticismo de professor: a OpenAI não provou o caso mais geral do problema, aquele sem forças externas atuando sobre o fluido, que boa parte dos matemáticos considera a versão realmente profunda e que segue em aberto. O que a empresa mostrou foi uma variante — com forçamento suave — que é tecnicamente diferente do que a comunidade científica historicamente entende como "o" problema de Navier-Stokes. Não é pouca coisa, mas também não é o xeque-mate que os títulos sugerem.

Soma-se a isso uma polêmica nada elegante: os matemáticos Tristan Buckmaster, da Universidade de Nova York, e Levent Alpöge, de Harvard, afirmam que a OpenAI acelerou o próprio trabalho depois de saber que os dois vinham usando modelos da Anthropic — concorrente direta e empresa por trás do assistente de IA Claude — para atacar um problema relacionado. A OpenAI nega má-fé, mas depois passou a creditar publicamente o trabalho concorrente dos dois pesquisadores.

Por que a cautela é saudável

O Clay Mathematics Institute, guardião oficial do prêmio, não certificou o resultado até agora — e a própria OpenAI já declarou que não pretende reivindicar o US$ 1 milhão. Em bom português, isso é a empresa reconhecendo, nas entrelinhas, que ainda falta o crivo mais rigoroso da comunidade científica: a revisão por pares.

Nada disso torna o feito irrelevante. Usar exércitos de agentes de IA para explorar um espaço de provas tão vasto é, no mínimo, uma vitrine e tanto do que a automação já consegue fazer em matemática pura. Mas equação centenária resolvida por IA é manchete forte demais para não merecer duas leituras antes de acreditarmos de olhos fechados.


Atualização (10/09, 04:02): O caso ganhou um novo capítulo com acusações do matemático Tristan Buckmaster, da Universidade de Nova York. Ele afirma que, em 6 de setembro, foi questionado por funcionários da OpenAI sobre sua pesquisa relacionada ao mesmo problema matemático, ouvindo a pergunta "por que você arruinaria sua carreira?". Segundo Buckmaster, ele e o matemático Levent Alpöge (que atua na Anthropic) já vinham desenvolvendo uma estratégia baseada em uma técnica de "forcing" — linha de investigação pela qual, segundo ele, praticamente mais ninguém estava trabalhando — e teriam chegado a resultados em 15 de agosto. Em 3 de setembro, Buckmaster foi informado de que a OpenAI teria tomado conhecimento do avanço e adotado método semelhante.

O matemático levantou a suspeita de que a OpenAI possa ter tido acesso ao seu trabalho por meio de sessões do Codex, assistente de programação da empresa, nas quais ele dizia ter deixado rascunhos da pesquisa feita com Alpöge. A OpenAI, por sua vez, afirmou que seus funcionários não acessaram o material do matemático "por nenhum meio" antes da divulgação pública do resultado, mas reconheceu não poder descartar que "dados anonimizados" derivados do uso de suas ferramentas tenham contribuído para o treinamento de seus modelos. Sam Altman disse que a empresa estava "curiosa para saber" se sua própria IA também conseguiria resolver o problema e argumentou que as abordagens dos dois grupos "parecem diferentes" — alegação contestada por Buckmaster.

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