
Ex-funcionário da Open AI acusa empresa de impor jornada des 70 horas semanais
No começo do ano, a OpenAI recomendou publicamente que empresas testassem a semana de trabalho de quatro dias graças aos ganhos da IA. Ex-funcionários dizem à BBC que, internamente, a rotina real chegava a 70 horas semanais.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Imagine uma professora que passa aos alunos uma redação sobre os benefícios de dormir oito horas por noite — e depois vai para casa corrigir provas até as três da manhã, todos os dias da semana. É mais ou menos essa a contradição que a OpenAI, criadora do ChatGPT, está sendo acusada de viver.
No começo de 2026, a empresa recomendou publicamente que outras companhias testassem a semana de quatro dias de trabalho, com o mesmo salário, argumentando que a inteligência artificial em breve aceleraria tanto o trabalho humano que o mundo corporativo deveria se preparar para jornadas mais curtas.
O discurso é sedutor: se a IA faz o trabalho pesado, por que manter as pessoas presas a cinco dias de expediente? O problema é o que a reportagem original da BBC encontrou ao ouvir quem trabalha — ou trabalhou — dentro da própria OpenAI.

Foto: reprodução/nation.com.pk
O que os bastidores mostram
Um ex-funcionário técnico da OpenAI, que deixou a empresa no ano passado, contou à BBC que a companhia nunca chegou a testar internamente a tal semana de quatro dias que recomendava a terceiros. Pelo contrário: relatou jornadas de até 70 horas semanais, com idas ao escritório também aos finais de semana só para "se atualizar ou garantir que as coisas não estavam quebradas". Em períodos de sprint, o relato é ainda mais duro — funcionários da OpenAI e também da Anthropic mencionam semanas que ultrapassam 90 horas de trabalho.
A rotina descrita inclui reuniões de gestão de crise, trabalho recorrente aos sábados e domingos, e avaliações de desempenho descritas como "implacáveis", com colegas sendo desligados de forma repentina. Funcionários atuais e ex-funcionários de OpenAI, Anthropic, Meta e Google relataram à BBC padrão parecido: quanto mais a IA promete liberar tempo, mais os times que constroem essa IA parecem trabalhar.
Dois discursos, uma engrenagem só
A explicação mais simples é também a mais desconfortável: a corrida por lançar modelos de IA cada vez mais avançados, antes da concorrência, criou um ritmo de trabalho incompatível com a folga que essa mesma tecnologia promete entregar ao resto do mercado. É como vender guarda-chuva anunciando sol o dia inteiro — a lógica do produto e a lógica da produção não batem.
Para o mercado de trabalho em tecnologia, o episódio serve de alerta: promessas de produtividade turbinada por IA não vêm necessariamente acompanhadas de jornadas mais leves para quem constrói essa mesma IA. Pelo menos não ainda, e não na origem do discurso.