
OpenAI quer chamar data centers de "campi de computação" em ofensiva de imagem
Em meio a pesquisas que mostram até 71% dos americanos contra data centers de IA na própria região, a OpenAI prepara uma campanha pós-eleitoral que inclui rebatizar suas instalações como "AI compute campuses".
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
O número que explica o rebranding
Setenta e um por cento dos americanos dizem se opor à construção de data centers de inteligência artificial perto de onde moram, segundo pesquisa citada pela imprensa americana neste ano. Outro levantamento, da Reuters/Ipsos, mostrou 64% dos entrevistados rejeitando a construção acelerada dessas instalações. É nesse terreno hostil que a OpenAI decidiu testar uma solução clássica de marketing corporativo: trocar o nome do problema.
Segundo reportagem da TechCrunch, a empresa avalia passar a chamar seus data centers de "AI compute campuses" — algo como "campi de computação de IA" — como parte de uma ofensiva de relações públicas e lobby em Washington a partir da sessão legislativa que começa em 9 de novembro, logo após as eleições de meio de mandato. A frente é comandada por Chris Lehane, diretor global de assuntos (chief global affairs officer) da companhia, que também defende "limites de velocidade" regulatórios para sistemas de IA mais potentes e um papel mais ativo dos EUA na definição de padrões globais para o setor.
Marca contra tijolo e cimento
O movimento não nasce no vácuo. A oposição a data centers de IA nos EUA saiu da categoria de reclamação de vizinhança para virar risco de negócio: a consultoria Carbon Direct mapeou ao menos 46 projetos adiados ou cancelados por pressão comunitária entre janeiro de 2024 e maio de 2026, com cerca de US$ 130 bilhões em empreendimentos ameaçados só no início deste ano. O combustível da revolta é concreto — tarifas de energia mais caras, consumo de água e ocupação de terras agrícolas — e não some com uma troca de rótulo.
Por isso o termo "campus" não é acidental: campus remete a universidade, parque tecnológico, algo que gera emprego e orgulho local, não uma instalação industrial que disputa energia e água com a vizinhança. A aposta de Lehane é que a embalagem ajude a vender projetos como o de Pike County, no Ohio, que a OpenAI apresenta como gerador de milhares de empregos na região dos Apalaches.
Quem ganha, quem fica com a conta
Quem ganha no curto prazo é a própria OpenAI e pares como Amazon e Microsoft — que também vêm recuando de acordos de confidencialidade com governos locais para abrir negociações, outro gesto da mesma ofensiva de imagem. Reposicionar o debate ajuda a destravar licenciamento, incentivo fiscal e paciência política em ano pré-eleitoral, com a IA projetada para ser tema central da corrida presidencial de 2028.
Quem paga a conta é quem já reclama: moradores de cidades que veem a conta de luz subir e o aquífero sob pressão não ganham megawatt nem litro de água a menos só porque a placa na entrada do terreno mudou de "data center" para "compute campus". Rebranding resolve percepção, não capacidade de rede elétrica — e comunidades organizadas já mostraram que sabem separar as duas coisas.