OpenEvidence vale US$ 15 bi, mas anúncios no app médico geram desconfiança
A startup de IA que virou ferramenta de consulta rápida para dois terços dos médicos dos EUA é financiada por publicidade farmacêutica — e isso levanta dúvidas sobre precisão e conflito de interesse.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
O "Google da medicina" que ninguém fora do consultório conhece
Se você nunca ouviu falar da OpenEvidence, startup americana de inteligência artificial voltada a profissionais de saúde que funciona como um motor de busca médico, não se preocupe: a ideia é que o paciente nem precise saber. Fundada em 2022 por Daniel Nadler e Zachary Ziegler, a empresa sediada em Miami cresceu tanto que, segundo reportagem da Ars Technica, já é usada por cerca de dois terços do aproximadamente um milhão de médicos nos Estados Unidos — mais de 1,1 milhão de clínicos verificados, segundo dados de setembro de 2026.
Em bom português: é como se, da noite para o dia, a maioria dos médicos americanos tivesse passado a consultar um assistente de IA no meio do atendimento, do mesmo jeito que um professor recorre a uma enciclopédia confiável antes de responder a pergunta de um aluno. A empresa afirma processar mais de 42 milhões de perguntas por mês.
De onde vem o dinheiro — e por que isso incomoda
Aqui está o ponto mais delicado da pauta: a OpenEvidence é gratuita para os médicos, mas se sustenta vendendo publicidade de farmacêuticas e fabricantes de equipamentos, exibida ao lado das respostas geradas pela IA. Segundo informações cruzadas por diferentes veículos, a empresa vende apenas uma fração pequena do seu espaço publicitário, mas já projeta algo entre US$ 400 milhões e US$ 500 milhões em receita de anúncios somente em 2026 — volume que ajuda a explicar o salto de valuation: de US$ 1 bilhão no início de 2025 para US$ 15 bilhões após uma rodada de US$ 250 milhões liderada por Andreessen Horowitz e Byers Capital, com Blackstone, Thrive Capital e Sequoia Capital também na mesa.
O problema é a pergunta que fica no ar: um médico que recebe uma resposta clínica patrocinada por um laboratório farmacêutico está tomando uma decisão isenta? É o equivalente a perguntar a um vendedor de carros qual carro comprar — a resposta pode até ser honesta, mas o incentivo comercial nunca está totalmente fora da equação.
Precisão: o copo pela metade (ou cheio, dependendo de quem pergunta)
Os dados sobre confiabilidade são contraditórios, e vale mostrar os dois lados. Um estudo com 149 médicos, usando 620 perguntas reais de atendimento, concluiu que a OpenEvidence superou modelos de IA genéricos em precisão, utilidade clínica e qualidade das fontes citadas. Por outro lado, outra pesquisa acadêmica apontou que a ferramenta acertou menos de 45% das questões médicas mais complexas — e especialistas citados na reportagem da Ars Technica alertam para o risco de a IA tirar conclusões fortes demais de estudos com amostras pequenas, além do temor de que o uso constante erode a capacidade crítica dos próprios médicos.
Em resumo: a OpenEvidence entrega velocidade e fontes citadas, algo raro em chatbots genéricos, mas isso não a torna infalível — nem imune ao conflito de interesse de quem paga a conta.
O que fica da pauta
O crescimento é real e a utilidade clínica, defendida por boa parte dos médicos, também. Mas a combinação de alta adoção, publicidade farmacêutica embutida e métricas de precisão ainda inconsistentes é exatamente o tipo de mistura que pede mais transparência — e, provavelmente, mais regulação — antes que se torne parte invisível e definitiva da rotina médica.