
Oracle oferece 2 GW de renováveis para acalmar críticos do Stargate
Oracle abriu concorrência por 2 GW de energia limpa em Novo México para compensar as emissões do Project Jupiter, ligado ao Stargate — mas o data center continuará rodando a gás natural. Comunidades locais e ambientalistas não estão convencidos.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
2 GW é o número que a Oracle quer que você lembre
A Oracle publicou, em 8 de setembro, uma concorrência para até 2 gigawatts de projetos renováveis (solar, eólica e geotérmica) em Novo México, com entrada em operação escalonada entre 2027 e 2031. A meta declarada: zerar a pegada de carbono do Project Jupiter, o megacampus de data centers ligado ao Stargate — a iniciativa bilionária de infraestrutura de IA anunciada em 2025 com apoio do governo Trump — até 2031. A empresa também destinou US$ 1 milhão para pesquisa em captura e sequestro de carbono.
O problema é o que esse número não muda: o Project Jupiter, orçado em US$ 165 bilhões, vai continuar sendo alimentado por 2,45 GW de células de combustível de óxido sólido da Bloom Energy, abastecidas por um pipeline de gás natural fóssil de cerca de 400 milhões de pés cúbicos por dia (o "Green Chile Project", da Energy Transfer). Renovável compensa, gás opera.
Quem sai ganhando na narrativa
Para Oracle e OpenAI, o pacote de renováveis é uma peça de relações públicas bem calculada: mostra movimento em direção a metas ambientais sem atrasar em um dia sequer a construção do data center em Santa Teresa, no sul do Novo México. A empresa já havia trocado turbinas a gás e geradores a diesel pelas fuel cells da Bloom Energy neste ano, alegando redução de emissões e de consumo de água frente ao plano original — um ajuste que ajuda a suavizar o discurso justamente no momento em que a receita trimestral da Oracle saltou 30%, para US$ 19,3 bilhões, turbinada pela demanda de infraestrutura de IA.
Quem não está comprando o discurso
Do outro lado, moradores de Santa Teresa e organizações ambientalistas seguem batalhando nos tribunais. A Suprema Corte de Novo México já susteve duas frentes do projeto: o processo de licenciamento de qualidade do ar, após petição da New Energy Economy, e a autorização emergencial de um novo poço de água, contestada pelo Center for Biological Diversity. O argumento central dos críticos é que o órgão ambiental estadual não pode avaliar a licença de emissões sem sequer ter definido oficialmente a fonte de combustível do projeto.
Michael Thomas, CEO da plataforma Cleanview, resumiu o ceticismo do setor: o programa de renováveis é "sintético", já que os 2 GW prometidos não vão energizar diretamente o data center. Na prática, a Oracle compra papel verde para compensar uma operação que continua, e continuará, rodando a gás.