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Ciência13 de out. de 2026, 01:20

Ordem escondida: o que a ciência achou no cérebro sob psilocibina

O maior estudo do tipo já feito mostra que o cérebro sob psilocibina não é só caos: ele se reorganiza em padrões ligados ao que a pessoa está fazendo e sentindo no momento. Pesquisadores da Monash University associam os padrões mais nítidos à sensação de dissolução do eu.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana

Pra escala humana: imagine 62 pessoas, uma a uma, entrando num tubo de ressonância magnética, tomando uma dose de psilocibina — o composto psicodélico encontrado em cogumelos — e passando por um roteiro de 20 e poucos minutos ali dentro: cinco minutos de repouso de olhos fechados, cinco minutos de meditação guiada por áudio, sete minutos ouvindo música e, por fim, abrindo os olhos para um vídeo. Esse é o desenho do que pesquisadores australianos chamam do maior estudo de imagem cerebral de psicodélico já feito num único centro de pesquisa.

O que foi confirmado

A reportagem da Ars Technica, site americano especializado em ciência e tecnologia, descreve um achado que contraria a imagem clássica do "cérebro psicodélico caótico": sob efeito da psilocibina, a atividade cerebral de cada participante não virou ruído aleatório — ela se organizou em padrões que acompanhavam o que a pessoa estava fazendo a cada momento (descansar, meditar, ouvir música). O estudo foi conduzido por pesquisadores do Turner Institute for Brain and Mental Health, centro de pesquisa em saúde cerebral e mental ligado à Monash University, universidade pública australiana sediada em Melbourne, e publicado na revista científica Nature. O autor principal é o pesquisador Devon Stoliker, e o estudo teve como autor sênior o professor Adeel Razi, ambos do Turner Institute. Segundo o material divulgado pela própria Monash, os sinais de "caos" relatados em pesquisas anteriores apareciam quando os dados eram tratados como média do grupo — mas, olhando pessoa por pessoa, usando aprendizado de máquina para achar padrões estatísticos escondidos, a equipe encontrou organização individual consistente.

O que ainda é hipótese

Aqui a linha entre dado e interpretação importa. É achado direto do estudo: os padrões mais nítidos de organização cerebral apareceram nos participantes que relataram a sensação de que a fronteira entre si mesmos e o mundo havia se dissolvido — a experiência de "ser um com o mundo" que inspira o título da reportagem original. Já a ideia de que esse achado vai "revolucionar" o tratamento clínico de depressão, ansiedade, trauma ou dependência, mencionada nos materiais de divulgação da universidade, é expectativa dos próprios pesquisadores, não um resultado clínico já comprovado — o estudo foi feito com adultos saudáveis, sem diagnóstico psiquiátrico, e não testou desfechos terapêuticos.

Por que isso importa

Se a ordem por trás do caos aparente puder ser medida de forma confiável, ela pode se tornar um marcador biológico para calibrar doses e prever respostas em ensaios clínicos futuros com psicodélicos — algo que, segundo a equipe da Monash, ainda depende de mais pesquisa e de validação em outras populações, incluindo pacientes.

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