
Os anéis de um corpo de 250 km mudaram em uma década, mostra o Webb
Observações do telescópio James Webb revelam que os dois anéis do centauro Chariklo se transformaram de forma oposta em poucos anos — um ficou mais opaco, o outro, menos. Cientistas ainda não sabem por quê.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Chariklo tem cerca de 250 km de diâmetro — menos do que o comprimento da ilha da Tasmânia, e menor que muitas crateras de impacto já vistas em outros corpos do sistema solar. Ainda assim, esse pedregulho gelado guarda um dos segredos mais intrigantes da astronomia planetária recente: ele tem anéis, e esses anéis estão mudando.
O que é Chariklo
Chariklo é um centauro — classe de objetos do sistema solar que orbitam entre Júpiter e Netuno, misturando características de asteroides e cometas, geralmente presos numa órbita instável entre os planetas gigantes. Chariklo especificamente circula o Sol entre Saturno e Urano. Descoberto como o maior centauro conhecido, ganhou fama científica em 2013, quando astrônomos identificaram dois anéis estreitos ao seu redor — a primeira vez que um objeto tão pequeno mostrou ter esse tipo de estrutura, até então associada só a planetas gigantes como Saturno e Urano. Os dois anéis foram batizados de C1R (interno) e C2R (externo).
O que é confirmado pelas observações
Um novo estudo liderado por Pablo Santos-Sanz, do Instituto de Astrofísica da Andaluzia (IAA-CSIC), na Espanha, publicado na revista científica Science Advances, comparou dados novos do telescópio espacial James Webb com observações anteriores feitas em 2013, 2014 e 2017. A técnica usada é a ocultação estelar: mede-se a queda de brilho de uma estrela de fundo quando um objeto passa na frente dela. A observação do Webb, feita em 18 de outubro de 2022, foi a primeira ocultação estelar planejada e prevista com antecedência usando o telescópio.
O resultado confirmado: os dois anéis mudaram de opacidade em direções opostas num intervalo de poucos anos. O anel interno (C1R) ficou significativamente mais opaco. Já o anel externo (C2R) ficou menos opaco, deixando passar mais luz do que em observações anteriores. É a primeira evidência direta de que o sistema de anéis de um corpo pequeno pode se transformar em escala de poucos anos, e não de milênios, como se supunha.
O que ainda é hipótese
Os pesquisadores listam três explicações possíveis, sem descartar nenhuma: a mudança pode refletir uma evolução física real do material que compõe os anéis; pode ser um efeito de diferenças técnicas entre os instrumentos usados nas observações de 2013-2017 e as do Webb em 2022; ou uma combinação dos dois fatores. O mecanismo exato que estaria alterando essas partículas ao redor de um corpo tão pequeno — cuja gravidade é muito mais fraca que a de um planeta — segue sem explicação definitiva.