
Osso de antebraço achado em caverna da China é de misterioso grupo extinto
Análise de proteínas identificou o primeiro rádio denisovano já encontrado, em meio a centenas de ferramentas e dezenas de milhares de ossos de animais na Caverna de Bianfu, no sudoeste da China.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: pegue o osso que vai do seu cotovelo ao pulso — o rádio. Agora imagine que esse mesmo osso, pertencente a uma pessoa que viveu há mais de 130 mil anos, é o primeiro exemplar desse tipo já identificado de todo um grupo de humanos antigos. É o que pesquisadores encontraram numa caverna no sudoeste da China.
O que foi confirmado
O osso foi achado na Caverna de Bianfu, na província de Yunnan, e pertence a um denisovano — linhagem de humanos antigos, parente dos neandertais, que viveu na Ásia e é conhecida principalmente por fragmentos genéticos e ossos raros, já que poucos fósseis desse grupo foram encontrados até hoje. A identificação foi feita pela equipe da pesquisadora Fu Qiaomei, do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia (IVPP), ligado à Academia Chinesa de Ciências — principal instituição do país dedicada a fósseis de vertebrados e à origem da espécie humana. Os resultados saíram em dois estudos publicados na revista científica Nature em 9 de setembro.
Segundo os artigos, o rádio (catalogado como BFD771) tem uma combinação de traços que chama atenção: a região próxima ao cotovelo lembra a de neandertais, mas o formato geral do osso e a geometria da parte central se aproximam mais dos humanos modernos — indício, segundo os autores, de demandas biomecânicas e adaptações comportamentais próprias desse grupo. A identificação foi possível graças a uma estratégia de análise de proteínas antigas, já que o DNA nem sempre se preserva bem em fósseis dessa idade.
Além do rádio, a caverna revelou outros quatro dentes e dois fragmentos de crânio humanos, pertencentes a pelo menos três indivíduos denisovanos que viveram entre 167 mil e 134 mil anos atrás, de acordo com a datação de diferentes camadas do sítio. No entorno dos fósseis humanos, a equipe catalogou mais de 60 mil fragmentos ósseos de animais — incluindo restos de bovinos e cervos com marcas de corte — e mais de 1.300 artefatos de pedra, entre eles cerca de 200 ferramentas feitas de lascas, além de ferramentas de osso.
O que ainda é hipótese
Os pesquisadores descrevem a descoberta como uma peça que preenche uma lacuna geográfica importante na distribuição conhecida dos denisovanos pela Ásia, mas o comportamento e o modo de vida completo desse grupo em Bianfu ainda estão sendo reconstruídos a partir do conjunto de ferramentas e ossos de animais. A extensão exata das semelhanças e diferenças anatômicas do rádio em relação a outros hominídeos também segue em análise, já que se trata de um osso sem precedente direto de comparação dentro da própria linhagem denisovana.
Por que importa
Com pouquíssimos fósseis denisovanos catalogados no mundo, cada novo osso identificado — ainda mais um tipo inédito, como um osso do braço — ajuda a preencher o quebra-cabeça de como era o corpo desses humanos antigos e como eles se espalharam e sobreviveram no continente asiático.