
Oura adia IPO de US$ 2,2 bi mesmo com demanda 4 vezes maior que a oferta
A fabricante do anel inteligente Oura suspendeu a oferta que avaliaria a empresa em até US$ 15 bilhões, citando incerteza no mercado — mesmo após atrair pedidos quatro vezes acima do número de ações disponíveis.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
US$ 2,2 bilhões engavetados às vésperas da estreia
A Oura, fabricante do anel inteligente que virou febre no rastreamento de sono e saúde, suspendeu o IPO que buscava levantar até US$ 2,2 bilhões na Nasdaq. A oferta previa a venda de 50 milhões de ações entre US$ 40 e US$ 44 cada, o que colocaria a empresa numa avaliação de mercado de US$ 14,1 bilhões — ou US$ 15 bilhões numa base diluída, somando opções e ações restritas.
O detalhe que chama atenção: a demanda não era o problema. Segundo apurado, os pedidos dos investidores chegaram a superar em quatro vezes o número de ações ofertadas. O motivo declarado pela empresa foi genérico — "incerteza" no mercado de IPOs — sem detalhamento adicional. O pano de fundo, porém, é claro: o mercado de aberturas de capital nos EUA esfriou no fim de 2026, pressionado pela alta de juros do Federal Reserve, tensões geopolíticas e a volatilidade recente das ações ligadas a IA. A Oura não está sozinha: Holtec Nuclear e a seguradora Bamboo Insurance Services, apoiada pela gestora CVC Capital Partners, também adiaram listagens recentes.
Os números que sustentavam a aposta
A empresa chega ao adiamento em posição financeira sólida. São 5,7 milhões de membros pagos — alta ante os 5 milhões de junho —, receita projetada para crescer 90% em 2026 e chegar a US$ 907,9 milhões, e margem bruta de 89% no segmento de assinaturas, que já responde por 20% das vendas. O caixa disponível em junho era de US$ 372 milhões. O lançamento do anel Oura 5 teve boa recepção comercial.
O CEO Tom Hale minimizou o recuo: "o IPO é apenas um passo em nossa jornada", disse, afirmando que a empresa tem "o luxo de escolher o momento certo".
Quem fica esperando na fila
A pausa deixa investidores e funcionários sem a liquidez que aguardavam. O maior prejudicado no papel é a gestora de venture capital Forerunner Ventures, que detém 9,3% da Oura e veria cerca de US$ 1,2 bilhão de sua fatia realizados na venda. A empresa já havia captado US$ 900 milhões em rodada liderada pela gestora Fidelity em outubro de 2025, quando foi avaliada em US$ 11 bilhões — ante US$ 5,2 bilhões em dezembro de 2024. A trajetória de valuation mostra a pressa do mercado em precificar a Oura; a pausa no IPO mostra que nem toda demanda forte garante uma janela aberta.