
Pai do PlayStation diz que ódio aos discos é só mentalidade; e o bolso de quem?
Ken Kutaragi, o criador do PlayStation, defendeu o fim das mídias físicas em entrevista à VGC e chamou a revolta dos fãs de questão de mentalidade. Ele entende o apego, mas acha que manter discos não é economicamente razoável.
Por Théo Ramos · Repórter de Games
Quem fala, e por que isso pesa
Ken Kutaragi não é um executivo qualquer soltando opinião em evento de games. É o cara apontado como o "pai do PlayStation", responsável por bolar os três primeiros consoles da marca antes de sair da Sony em 2007. Então quando ele abre a boca sobre o futuro da plataforma, a galera presta atenção — mesmo ele mesmo tendo avisado que a opinião é pessoal e não representa a Sony Computer Entertainment.
Em entrevista ao portal britânico VGC (Video Games Chronicle, referência em notícias de games fora do Brasil), publicada nesta sexta-feira (16), Kutaragi foi direto ao apoiar o movimento da Sony de ir abandonando os jogos em mídia física. E não poupou os fãs insatisfeitos: para ele, a bronca é "questão de mentalidade".
O que ele disse, nas palavras dele
A fala mais marcante resume bem o raciocínio: "Eu entendo que os discos físicos se tornaram uma metáfora para ter a propriedade dos jogos. Compreendo profundamente essa mentalidade." Até aqui, parece empatia. O problema é o que vem depois: ele compara o console a um smartphone, dizendo que "ninguém acha que a mídia física seja necessária para um aparelho conectado à rede", porque as pessoas confiam que vão manter acesso ao conteúdo. Ou seja: pra ele, é tudo cabeça, hábito antigo que não acompanhou a internet de hoje.
Kutaragi também sugeriu que, com o crescimento do streaming de jogos, pode chegar o dia em que "não precisaremos de nenhum console" — uma visão que, aliás, ele já defendia desde 2006, bem antes de isso virar pauta quente.
O contra-argumento que ele não encara de frente
Aqui que a conversa fica torta. Chamar o apego ao disco de "mentalidade" ignora um detalhe nada abstrato: quem compra mídia física tem posse de verdade sobre o jogo. Pode revender, trocar, emprestar, jogar depois de anos sem depender de servidor ligado. Quem compra digital, na prática, está adquirindo uma licença — que pode sumir se a loja fechar, se a conta for banida ou se a empresa decidir remover o título do catálogo. Não é força do hábito, é diferença jurídica e prática que afeta o bolso e o direito do consumidor.
Tem também a questão da preservação: coleções físicas são o que garante que jogos antigos sobrevivam décadas depois do fim do suporte oficial. Sem disco, a memória do hobby passa a depender inteiramente da boa vontade de quem detém os servidores.
O lado que ele defende
Dito isso, o argumento econômico de Kutaragi não é careta. Produzir, embalar e distribuir discos custa caro, exige fábrica, logística e estoque — e cada vez menos gente compra jogo em loja física. Reportagens internacionais sobre a mesma entrevista destacam que ele reconhece que a forma como a Sony vem conduzindo essa transição já causou atrito real com os fãs mais fiéis.
O fato é que a discussão não devia terminar classificando quem defende o disco como apegado ao passado. É sobre ter controle real sobre o que se paga.