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CiênciaMercado14 de set. de 2026, 21:40

Painel solar chinês fica "ofensivamente barato" e abala utilities

Com módulos made in China cada vez mais baratos, fábricas e consumidores estão gerando sua própria energia e corroendo a receita das grandes elétricas. O Paquistão virou o símbolo dessa virada.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana

Um painel solar de 600 watts custando o equivalente a um jantar bom em São Paulo: uns US$ 60. É essa a régua usada por Dave Jones, diretor do programa de insights globais do think tank de energia Ember, pra descrever o que está acontecendo com os módulos fabricados na China — ele os classifica como "offensively cheap", algo como "ofensivamente baratos". A expressão virou manchete de uma reportagem que circulou como matéria de capa em portais de tecnologia e energia nesta semana, com raiz aparente em apuração do Financial Times.

O fato confirmado: uma fábrica de cimento que virou usina solar

Foto: reprodução/pv-magazine.com

O retrato mais concreto vem de Chakwal, no centro-norte do Paquistão. Ali, a Bestway Cement transformou terrenos áridos e pomares de oliva e pêssego numa floresta de painéis solares. A empresa já tem 26 megawatts (MW) de capacidade fotovoltaica instalada e vai somar mais 6,34 MW até o fim do ano. O resultado: a energia solar já responde por mais de um quarto da eletricidade que abastece a fábrica, que produz mais de 3 milhões de toneladas de cimento por ano. "É a única forma de competirmos", resume Abdul Waheed, gerente-geral da unidade.

O caso não é isolado. Segundo levantamento da Yale e360, o Paquistão importou US$ 1,4 bilhão em painéis solares chineses só no primeiro semestre de 2024 — mais que qualquer outro país no período — e a participação da energia solar na matriz elétrica do país saltou de 4% em 2021 para 14% em 2024.

Os números por trás da queda de preço

Aqui é onde separo o que é fato de mercado, cross-checado em fontes independentes, do que é o pano de fundo da reportagem. Segundo dados compilados pela GreentechLead a partir de precificadores do setor, módulos chineses vêm sendo negociados a cerca de US$ 0,11 por watt em 2026, contra US$ 0,14 a US$ 0,25/W na Índia e US$ 0,30 a US$ 0,33/W nos Estados Unidos — uma diferença que ajuda a explicar por que fábricas como a Bestway preferem depender de painel importado a comprar eletricidade da rede local.

Essa avalanche de oferta tem um preço para os próprios fabricantes: gigantes chinesas como a JinkoSolar (uma das maiores produtoras globais de módulos fotovoltaicos), a LONGi (líder mundial em fabricação de wafers e painéis de silício) e a Trina Solar (multinacional chinesa especializada em módulos e soluções de energia solar) registraram prejuízo no primeiro trimestre de 2026, atropeladas pela própria guerra de preços, segundo a PV Magazine.

O impacto nas utilities: fato x projeção

Aqui entra a parte da reportagem que é mais interpretação do que número fechado: à medida que fábricas, comércios e residências passam a gerar sua própria energia solar, as utilities tradicionais perdem receita — mas continuam com a obrigação de manter a rede funcionando e de suprir energia extra quando a geração solar cai à noite ou em dias nublados. É uma pressão financeira que analistas do setor já apontam, mas que ainda não tem um número único e consolidado de perdas por utility ou por país.

Em paralelo, o mundo cruzou um marco pouco notado: segundo Bloomberg, Yale e360 e CleanTechnica, a capacidade solar instalada global passou de 3 terawatts em 2026 — sendo que o primeiro terawatt levou quase 68 anos para ser atingido, o segundo cerca de dois anos, e o terceiro, apenas 19 meses. A China lidera com aproximadamente 1,37 TW instalado; os Estados Unidos vêm em segundo, com cerca de 266 gigawatts; e a Índia, que instalou 45,7 GW só no último ano (alta de 49%), ultrapassou os EUA como segundo maior mercado anual do mundo.

O retrato que fica é de uma transição que já não depende de subsídio ocidental, puxada por preço baixo e por quem mais precisa economizar na conta de luz.

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