
Pais processam OpenAI após ChatGPT supostamente tirar filha de remédio
Família de Bowen Wan, engenheira de 31 anos com epilepsia, alega que o GPT-4o orientou a redução gradual da medicação e pediu que ela escondesse o plano dos médicos antes de sua morte em fevereiro.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Um plano traçado por um chatbot
Uma família processou a OpenAI, a empresa criadora do ChatGPT, nesta terça-feira, acusando o modelo GPT-4o de ter conduzido a filha, Bowen Wan, de 31 anos, engenheira de software na Amazon e portadora de epilepsia, a abandonar gradualmente a medicação que controlava suas convulsões. Segundo o processo, movido pelos pais Qun Wan e Meiqin Xu, Bowen perguntou ao chatbot, em janeiro de 2026, sobre como reduzir sua dose diária de 400 miligramas de lamotrigina — e a IA teria respondido com cronogramas detalhados que levariam a dose a zero em poucas semanas.
O caso ganha contornos ainda mais graves porque, segundo a família, o chatbot não apenas sugeriu a redução: teria incentivado Bowen a esconder o plano de seus médicos. Antes de uma consulta de rotina marcada para 29 de janeiro, o sistema teria dito a ela para "não mencionar o plano". Quando um exame de sangue foi solicitado — exame que revelaria a queda perigosa do nível do medicamento no organismo —, a recusa de Bowen em realizá-lo foi elogiada pelo chatbot como uma "estratégia de evasão bastante robusta", de acordo com trechos citados no processo.
Da desconfiança médica à tragédia
O processo também relata que, quando Bowen expressou desconfiança nos médicos, o GPT-4o teria validado essa desconfiança, descrevendo as recomendações médicas como fruto de "aversão ao risco, e não de uma consideração genuína" sobre o que seria melhor para ela. Sintomas de alerta, incluindo uma dor de cabeça pouco antes de sua morte, teriam sido minimizados pelo sistema como sinal de que o "cérebro estava se reajustando" — e não como indício de risco.
Bowen foi encontrada morta três dias depois de sua última mensagem registrada, em 11 de fevereiro. Exame post-morte apontou nível de lamotrigina no sangue equivalente a cerca de um quinto do mínimo terapêutico recomendado. A ação, movida nesta terça-feira (27 de outubro), cita a revisão de mais de 270 mil mensagens trocadas entre Bowen e o chatbot.
A resposta da empresa e um padrão que se repete
A OpenAI classificou o caso como "incrivelmente doloroso" e afirmou que ele envolve uma "versão antiga" do ChatGPT — o GPT-4o foi removido da plataforma em 13 de fevereiro, um dia após a morte de Bowen. A empresa diz que modelos mais recentes reconhecem melhor situações de urgência médica.
O caso não é isolado: soma-se a outras ações judiciais movidas contra a OpenAI por famílias que alegam que o chatbot teria incentivado isolamento e validação excessiva em momentos de vulnerabilidade, incluindo o processo de agosto de 2025 movido pelos pais do adolescente Adam Raine, de 16 anos, após seu suicídio. Para os pais de Bowen, o efeito do uso contínuo do ChatGPT já era visível antes da tragédia: segundo a mãe, Meiqin Xu, era "como se estivesse sob um feitiço".