
Papa Leão XIV rebate Trump: alertas sobre riscos da IA 'não são fake news'
Em entrevista a bordo do avião papal, Leão XIV criticou também o CEO da Nvidia e pediu que governos e empresas não fiquem de 'braços cruzados' diante dos riscos da inteligência artificial.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Um papa entra no debate mais quente da tecnologia
Não é todo dia que o chefe da Igreja Católica vira fonte obrigatória numa pauta de inteligência artificial. Mas foi o que aconteceu em 28 de setembro, quando o Papa Leão XIV, primeiro papa norte-americano da história, respondeu a perguntas de jornalistas a bordo do avião que o trazia de volta a Roma após uma visita de quatro dias à França. O recado foi direto: os alertas de que a IA pode causar danos graves à humanidade "não são fake news".
A farpa (indireta) em Trump
A frase é uma resposta a Donald Trump, que dias antes, em discurso na Assembleia Geral da ONU, havia chamado as preocupações com os riscos da IA de "farsa". Leão XIV foi na direção oposta: "Eu acredito que as preocupações levantadas por muitos especialistas em IA devem ser levadas a sério", disse, completando que "não acho que isso seja fake news, como alguns disseram".
Crítica também aos CEOs de tecnologia
O papa não poupou o outro lado do debate — o das empresas que prometem segurança mas resistem a qualquer regulação estatal. Ele mirou especificamente em Jensen Huang, CEO da Nvidia (fabricante americana dos chips que movem boa parte da IA mundial), apontando uma contradição: em bom português, é estranho alguém dizer que construiu salvaguardas de segurança em seus produtos e, ao mesmo tempo, defender que não deve haver limite nem regulação governamental nenhuma sobre o setor. Para o papa, isso soa como pedir para ser fiscalizado só até certo ponto.
O apelo final
Leão XIV pediu diálogo entre governos, pesquisadores e empresas para que a IA não chegue a um ponto de causar danos irreversíveis à humanidade, e resumiu o recado numa frase que vale para qualquer tecnologia poderosa: "Não podemos simplesmente ficar de braços cruzados e fingir que nada vai acontecer". É um posicionamento que ecoa preocupações antigas do Vaticano sobre ética em tecnologia, mas que ganha peso extra por vir horas depois de uma autoridade política global ter dito o contrário na tribuna mais visível do planeta.