
Patinetes da Bolt viram sensor de acessibilidade nas calçadas de Tallinn
Projeto Wheels4Wheels, da Bolt, usa sensores dos patinetes elétricos para identificar buracos e desníveis nas calçadas e alimenta o OpenStreetMap com dados de acessibilidade para cadeirantes.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
O que os patinetes enxergam que o olho não vê
Todo patinete elétrico da Bolt, a empresa estoniana de transporte por aplicativo que compete com Uber e 99 em dezenas de países, carrega acelerômetro, giroscópio, GPS e câmera — sensores pensados para segurança do veículo. O projeto Wheels4Wheels resolveu usar esses mesmos dados para outra coisa: descobrir onde a calçada é ruim demais para quem anda de cadeira de rodas.
No piloto em Tallinn, capital da Estônia, os patinetes rodaram 550 km em oito distritos e geraram 40,5 milhões de leituras de acelerômetro, convertidas em 66.088 avaliações de qualidade de superfície. Segundo a Bolt, o volume de dados de acessibilidade disponível na cidade cresceu 26% com o piloto.
Precisão que ainda depende de repetição
A empresa diz acertar a condição real da calçada em 8 de cada 10 vezes quando só um patinete passa pelo trecho; a taxa sobe para 9 em 10 quando vários veículos cruzam a mesma rua — ou seja, a ferramenta funciona melhor onde já circula bastante gente, o que é justamente onde soluções de acessibilidade tendem a chegar primeiro. Ruas menos movimentadas, e talvez mais isoladas, seguem com menos dados.
"A precisão é uma parte central" do desenvolvimento, disse Ardo Reinsalu, diretor de veículos da Bolt, à Cities Today. Ele afirma que o mapeamento pode "ajudar a identificar áreas onde as superfícies deficientes podem justificar inspeção ou melhoria" — mas a decisão de consertar a calçada continua sendo da prefeitura, não da empresa.
Quem paga a conta da manutenção
A Bolt abriu a tecnologia como código aberto e publica os dados no OpenStreetMap, gratuitos para qualquer cidade ou desenvolvedor de aplicativo de navegação usar. É um modelo que resolve a parte de diagnóstico sem custo direto ao poder público — mas não diz nada sobre quem vai pagar pelo conserto das calçadas mapeadas como ruins, nem em que prazo. A empresa planeja levar o projeto para parte da sua frota de mais de 230 mil veículos em 270 cidades; falta saber se prefeituras brasileiras, onde a Bolt também opera, entram nessa lista e se vão de fato usar o diagnóstico para agir.