
Pensilvânia dá poder de veto local a projetos de data centers de IA
Governador Josh Shapiro assinou ordem executiva que condiciona permissões estatais à aprovação das comunidades onde os data centers seriam construídos. Medida chega em meio a mais de 100 projetos represados e pesquisa em que 76% dos eleitores dizem rejeitar um data center perto de casa.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Aprovação da vizinhança vira pré-requisito estadual
A Pensilvânia acaba de amarrar o destino dos data centers de IA à opinião de quem mora ao lado deles. O governador Josh Shapiro assinou, em 18 de agosto, a Ordem Executiva 2026-05, batizada de "Protecting Pennsylvania Consumers from Data Center Impacts". Na prática, o estado só libera permissões se o projeto tiver o aval da comunidade local — e o próprio governador resumiu a régua sem meio-termo: se a empresa não convencer os vizinhos a dizer "sim", também não terá o apoio do estado.
A pergunta que fica para quem acompanha govtech é simples: por que precisou de uma ordem executiva para isso? A resposta está no Legislativo. A Câmara estadual até aprovou uma versão da regra em votação bipartidária, mas o Senado travou o texto. Shapiro contornou o impasse usando sua caneta — um lembrete de que, quando o parlamento emperra, decisões que afetam bairros inteiros acabam concentradas no Executivo.
O que muda para as empresas — e para o bolso do cidadão
Os chamados padrões GRID (Governor's Responsible Infrastructure Development) obrigam as desenvolvedoras a bancar a própria infraestrutura de energia, sem repassar custo para a conta de luz das famílias, além de exigir planos de engajamento comunitário desde a fase inicial, metas de conservação de água e proibição de acordos de confidencialidade com órgãos estaduais. Quem não assinar o compromisso legal perde acesso ao Fast Track Program, a via expressa de licenciamento que vinha sendo usada por gigantes como a Amazon.
É o tipo de exigência que outros estados americanos deveriam observar de perto: caberia perguntar se São Paulo, Rio ou qualquer capital brasileira disputando investimento em data center tem hoje mecanismo parecido de consulta pública vinculante — ou se a decisão fica só entre prefeitura e investidor, à revelia de quem mora no entorno.
Números que explicam a pressa
O governo estadual identificou mais de 100 projetos de data center em bancos de dados públicos, 58 já em conversa com o órgão ambiental (DEP) e apenas 15 com pedido formal de permissão — só cinco tinham todas as aprovações da fase inicial. Uma pesquisa de junho apontou que 76% dos eleitores registrados se opõem a um data center na própria comunidade, e Shapiro chegou a visitar Archbald, no nordeste do estado, para ouvir moradores incomodados com múltiplos projetos na mesma região.
Fica a dúvida que qualquer smart city precisa responder antes de correr atrás de investimento em IA: quem fiscaliza se as promessas de emprego, energia limpa e conservação de água viram compromisso público auditável — ou só discurso de inauguração?