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Ciência06 de set. de 2026, 12:42

Pergaminhos medievais guardaram DNA de vírus mortal de ovelhas

Um estudo publicado na Science Advances extraiu DNA do vírus da varíola ovina de manuscritos como os York Gospels, reconstruindo 3.500 anos da evolução do patógeno a partir da pele animal usada no pergaminho.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana

Pra escala humana: pergaminho medieval não é só papel de pele de animal esperando para ser lido — é, literalmente, um pedaço congelado de tecido biológico de um bicho que viveu há séculos. Foi essa lógica que um time internacional liderado pela University College Dublin (UCD), universidade pública irlandesa, usou para reconstruir 3.500 anos da história do vírus da varíola ovina, o sheeppox virus (SPPV), a partir de DNA sobrevivente em manuscritos como os York Gospels, evangelho iluminado de cerca de 990-1020 d.C.

O que foi confirmado

O estudo, publicado na Science Advances em setembro de 2026 e liderado pelo doutorando Louis L'Hôte sob supervisão do professor associado Kevin G. Daly, extraiu material genético viral direto da pele animal usada como matéria-prima do pergaminho. Os pesquisadores analisaram manuscritos do Reino Unido, França, Áustria e da região do Alto Reno, além de dentes de ovelhas de sítios da Idade do Bronze no Cazaquistão e na Rússia, cobrindo um intervalo de cerca de 1700 a.C. até o início da era moderna.

Os folios positivos se concentram entre os séculos 8 e 15 — período que inclui os York Gospels (3 folios positivos), o Corpus Glossary (um dos primeiros dicionários em inglês, de cerca de 800 d.C.) e o Speculum historiale, manuscrito ligado ao chamado Mapa de Vinland (4 folios positivos). Foram achados folios positivos em pergaminho de pele de bezerro, cabra e ovelha. Diferente da varíola humana, o genoma do sheeppox se mostrou muito estável ao longo dos milênios.

O que ainda é hipótese

A presença de DNA viral em peles de bezerro e cabra intriga os autores: pode indicar infecções cruzadas raras entre espécies, ou apenas contaminação durante o processamento das peles nas oficinas medievais de pergaminho — os pesquisadores não fecham essa questão. Também é hipótese, ainda que bem sustentada pelos dados, que a doença tenha sido um problema recorrente para criadores de ovelhas na Europa medieval, dado o agrupamento de casos positivos no mesmo período de maior produção dos manuscritos analisados.

Por que importa

O sheeppox é altamente contagioso, pode dizimar rebanhos inteiros — com mortalidade alta em animais jovens — e ainda hoje compromete produção de lã, carne e leite em regiões da África, Ásia e Oriente Médio. Reconstruir a evolução genética do vírus ao longo de séculos ajuda virologistas a entender como patógenos de DNA se mantêm estáveis ao longo do tempo, dado relevante para monitorar doenças emergentes em rebanhos hoje. Como resumiu um dos autores, o pergaminho é um artesanato em vias de desaparecer, mas os cientistas estão só começando a entender o quanto do passado ele preservou.

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