
Perseverance encontra rochas raras que podem vir das profundezas de Marte
Rover da NASA achou um campo de rochas claras além da cratera Jezero, formadas talvez na crosta profunda marciana e expostas por antigos impactos de asteroide.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: imagine cavar não alguns centímetros, mas quilômetros de crosta planetária, só que sem precisar cavar nada — bastou um impacto de asteroide há bilhões de anos para trazer à superfície de Marte rochas que, em condições normais, estariam enterradas fundo demais pra qualquer rover alcançar.
O que foi confirmado
Segundo a NASA, o rover Perseverance passou os últimos seis meses explorando a região batizada de Lac de Charmes, uma área de rocha antiga além da borda oeste da cratera Jezero, no planeta Marte. Nessa região, o veículo encontrou um grande campo de rochas de tom claro espalhadas pela superfície — um contraste chamativo, já que o solo marciano é dominado por rochas escuras de origem vulcânica.
Foto: reprodução/olhardigital.com.br
As análises feitas pelo próprio Perseverance indicam que muitas dessas rochas são gabro, um tipo de rocha ígnea rica em minerais de ferro e magnésio. Segundo a NASA, o gabro costuma se formar quando magma esfria e cristaliza lentamente no interior profundo da crosta de um planeta — processo bem diferente do resfriamento rápido que origina as rochas vulcânicas típicas da superfície marciana.
A descoberta foi relatada em artigo publicado no blog científico da missão Mars 2020, assinado por Alex Jones, doutorando do Imperial College London (universidade britânica de referência em ciências e engenharia) e integrante da equipe científica do Perseverance, operada pelo JPL-Caltech, laboratório da NASA responsável por missões robóticas no Sistema Solar.
O que ainda é hipótese
Foto: reprodução/science.nasa.gov
A origem exata dessas rochas claras segue em investigação. A hipótese principal, segundo a equipe da missão, é que elas tenham se formado nas profundezas da crosta marciana e só tenham sido expostas na superfície por conta de impactos antigos de asteroides — possivelmente até o próprio impacto que formou a cratera Jezero. Essa relação é reforçada pela presença de brechas na região: rochas compostas por fragmentos angulares claros e escuros, um tipo de formação que cientistas já associaram anteriormente a eventos de impacto no Marte primitivo.
Se confirmada, a origem profunda das rochas de Lac de Charmes abriria uma janela rara para estudar a história geológica mais antiga de Marte — inclusive seu vulcanismo inicial —, algo que normalmente exigiria perfurar a crosta do planeta a profundidades inacessíveis para qualquer missão atual.
Por que isso importa
A descoberta marca uma mudança de foco na missão do Perseverance, que até então se concentrava principalmente em buscar vestígios de ambientes aquáticos antigos dentro da cratera Jezero. Agora, a equipe também investiga diretamente os fundamentos geológicos profundos do planeta — e, novamente segundo a NASA, mais dados e análises ainda são necessários para confirmar de onde essas rochas realmente vieram.