
Pinturas rupestres gigantes na Austrália podem ser resposta à colonização
Estudo da Griffith University mapeou 165 sítios em Awunbarna e encontrou 29 serpentes-arco-íris pintadas em escala monumental, uma delas com mais de 6 metros de comprimento.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Imagine uma serpente pintada na parede de um abrigo de pedra medindo mais de 6 metros de comprimento — do chão a quase o teto, maior que um ônibus escolar. É essa a escala que pesquisadores encontraram entre as pinturas rupestres de Awunbarna, também conhecida como Mount Borradaile, no Território do Norte da Austrália.
O que está confirmado
Um estudo publicado na revista científica Australian Archaeology, liderado pelo arqueólogo Paul Taçon, da Griffith University, documentou 165 sítios de arte rupestre na região desde 2018, em parceria com Charlie Mungulda, guardião tradicional do povo Amurdak. Os pesquisadores contaram 29 representações da Serpente Arco-Íris (Rainbow Serpent) espalhadas por 21 sítios — a maior delas com mais de 6 metros de comprimento, com cabeça semelhante à de um crocodilo e dentes afiados. O levantamento também registrou figuras humanas de mais de 2 metros, pítons de cerca de 2 metros e um arranjo de pedras de 124 metros. Segundo os autores, essas pinturas em escala monumental datam predominantemente dos séculos 19 e 20, período posterior à chegada dos colonizadores europeus à região.
O que ainda é hipótese
O que não dá para confirmar com certeza é o motivo exato por trás do gigantismo das pinturas. A equipe de Taçon defende que o aumento de escala foi uma resposta cultural à colonização europeia e à caça comercial de búfalos, que chegou à região no fim do século 19: pintar seres ancestrais e animais em tamanho monumental teria sido uma forma de reforçar a conexão com o território e manter vivas tradições ameaçadas pela ruptura do contato com os colonizadores. Os próprios pesquisadores descrevem isso como uma tentativa de exercer controle sobre terras, tradições e comunidade diante de mudanças rápidas — mas tratam a leitura como interpretação, não como fato estabelecido.
Foto: reprodução/phys.org
Por que importa
O caso reforça um padrão que a arqueologia já observou em outras partes do mundo: expressões artísticas tendem a se intensificar justamente nos momentos de maior ameaça a uma cultura. Fica em aberto se esse padrão de "pintar maior" se repete em outras regiões da Austrália colonizada, e se é possível cravar uma cronologia mais precisa que ligue cada pintura a eventos históricos específicos, como a chegada de determinado grupo à área.