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IAMercado26 de set. de 2026, 16:38

Pode o CEO da Cloudflare salvar a web da IA?

Matthew Prince, CEO da Cloudflare, projeta que bots de IA podem superar humanos em até 1.000 vezes no tráfego web em cinco anos, e defende cobrar de robôs de IA por acesso a conteúdo.

Por Elias Brandão · Analista de IA e ética

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Em bom português: o que é o "Google Zero"

Imagine uma padaria que, durante trinta anos, vivia de um acordo tácito com o distribuidor de jornais: ele divulgava o endereço da padaria, e em troca o cliente ia até lá comprar o pão. Agora imagine que o distribuidor decide simplesmente entregar o pão pronto na porta de cada cliente — sem nunca mandar ninguém até a padaria. É basicamente essa a mudança que Matthew Prince, CEO da Cloudflare, empresa americana de infraestrutura de internet que hoje intermedia cerca de 20% de todo o tráfego web do planeta, descreveu em entrevista ao podcast Decoder, do The Verge, publicada nesta semana.

O termo cunhado para esse fenômeno é "Google Zero": buscas que terminam sem clique, porque a resposta já vem pronta na tela — hoje mais de 60% das buscas no Google não geram nenhum acesso a um site de origem. Quem mais sofre são justamente os sites de conteúdo "de prateleira" — receitas, tutoriais, comparativos — o tipo de página que uma IA consegue resumir sozinha sem precisar mandar ninguém até a fonte.

Os dois lados da moeda

Prince projeta um cenário radical: em cinco anos, bots de inteligência artificial poderiam superar usuários humanos em até 1.000 vezes no tráfego da internet. Do lado da Cloudflare, a resposta prática já existe — o "Pay Per Crawl", um mecanismo lançado pela empresa que permite a qualquer site cobrar um valor por cada vez que um robô de IA (como os que alimentam ChatGPT ou Claude) rastreia seu conteúdo, ou simplesmente bloquear esse acesso por padrão.

O argumento a favor é de justiça: quem produz o conteúdo original deveria ser remunerado por alimentar os modelos que hoje respondem no lugar dele. O contra-argumento, que o próprio Prince reconhece, é de poder de mercado: o Google tem escala suficiente pra resistir a pagar, e empresas de IA menores relutam em aceitar cobrança enquanto a maior de todas não for obrigada a fazer o mesmo — o que pode transformar o pedágio da Cloudflare em vantagem só pra quem tem porte de negociar.

O que ainda não tem resposta

Nem Prince, nem ninguém na entrevista, resolve a pergunta de fundo: se a maior parte do tráfego que sustenta a internet aberta hoje vem de gente clicando em links, o que sustenta essa mesma internet quando quem "lê" o conteúdo passa a ser, majoritariamente, uma máquina?

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