
Polestar diz ter sido enganada pelo governo Trump antes de banimento nos EUA
Em carta de 18 de agosto às concessionárias, a Polestar afirma que passou um ano respondendo exigências do Departamento de Comércio e recebeu sinais de aprovação — antes de ser barrada em junho pela mesma regra que poupou a irmã Volvo.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
O número que importa: zero explicação para uma diferença de tratamento
A Polestar diz que passou um ano inteiro respondendo exigências regulatórias do governo americano, recebeu sinais de que seria aprovada — e mesmo assim foi barrada do mercado dos Estados Unidos a partir do ano-modelo 2027. A informação está em carta de 18 de agosto enviada por Peter Wexler, chefe de produtos, rede de varejo e assuntos governamentais da marca nos EUA, às concessionárias americanas, segundo reportagem do The Wall Street Journal replicada pelo The Verge.
O histórico, segundo a carta: depois de responder múltiplas rodadas de perguntas ao longo de 2025, a Polestar teria recebido sinalização de que o Departamento de Comércio se preparava para recomendar sua aprovação. Em abril, o subsecretário de Comércio Jeffrey Kessler teria dito à empresa que seria razoável esperar aprovação — desde que a Volvo também a recebesse. A Volvo foi aprovada em maio. A Polestar foi negada em 24 de junho.
A regra que pegou a Polestar, mas poupou a irmã Volvo
A decisão se apoia na Connected Vehicle Rule, regra finalizada em janeiro de 2025 — iniciada ainda no governo Biden e mantida pelo governo Trump — que proíbe a venda nos EUA de veículos conectados com nexus suficiente com China ou Rússia. Entram na mira sistemas de telemática, câmeras, GPS, Bluetooth, módulos celulares e software de direção autônoma. As restrições de software valem a partir do ano-modelo 2027; as de hardware, só em 2030.
O problema para a Polestar não é onde o carro é fabricado — o Polestar 3 é montado na Carolina do Sul —, mas quem controla a empresa. Geely, gigante chinesa, detém cerca de 78% do capital da Volvo Cars. Já na Polestar, a Volvo reduziu sua fatia para cerca de 16%, enquanto a PSD Investment, veículo pessoal do fundador da Geely, Li Shufu, virou a maior acionista, com cerca de 44%. Somando as duas pontas ligadas a Li Shufu, o controle chinês da Polestar soma cerca de dois terços.
Mesma fábrica, mesmo software, destinos opostos
O ponto mais espinhoso da carta de Wexler é a comparação direta com a Volvo: o EX90 e o Polestar 3 saem da mesma linha de produção na Carolina do Sul, com hardware praticamente idêntico e o mesmo software. Ainda assim, a Volvo passou e a Polestar não. A empresa já classificou o tratamento distinto como contrário à lei, mas optou por não recorrer da decisão.
Quem perde, no imediato, são as concessionárias americanas e os planos de expansão da marca nos EUA, que já respondiam por apenas 6% das vendas globais no primeiro trimestre. Quem ganha terreno é a Volvo, que segue livre para vender nos EUA um carro quase gêmeo. A Polestar disse que vai focar na Europa, de onde já vem cerca de 80% de suas vendas, e que continuará vendendo os estoques existentes de Polestar 3 e 4 nos EUA, além de manter suporte a quem já comprou.