Polymarket movimenta US$ 600 milhões em apostas após eleições decididas
Levantamento da Wired identificou volume suspeito em mercados de previsão da Etiópia e da Romênia, com indícios de wash trading por contas automatizadas.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
US$ 600 milhões depois do resultado já estar claro
Mais de US$ 600 milhões trocaram de mãos na Polymarket, a maior plataforma de mercados de previsão do mundo, onde usuários apostam dinheiro em contratos sobre o resultado de eventos como eleições, em negociações feitas depois que o vencedor já era conhecido. O número é de uma investigação da Wired, publicada em 15 de outubro e replicada pela Ars Technica no dia seguinte.
Etiópia e Romênia no centro do caso
O grosso veio do mercado sobre a eleição da Etiópia: US$ 285 milhões negociados após o vencedor já estar óbvio, com tempo médio de retenção de cada posição de cerca de 9 segundos — padrão típico de operação automatizada por bots. Segundo o ex-trader da Polymarket Chris Park, cerca de US$ 284 milhões desse total vieram de pares de contas comprando e vendendo repetidamente entre si, prática que o economista Rajiv Sethi, da Universidade Columbia, classifica como wash trading, manipulação artificial de volume. A atividade persistiu por 123 dias após a eleição, porque a plataforma só liquida o mercado formalmente após a posse do eleito, mantendo os contratos abertos por meses. Na Romênia, um algoritmo de detecção da própria plataforma chegou a sinalizar 99,6% do volume de certas semanas como potencialmente ligado a wash trading, concentrado em candidatos de nicho.
Quem fiscaliza isso
Volume inflado artificialmente distorce a credibilidade dos preços da Polymarket como termômetro de probabilidade — justamente o argumento que a empresa usa para se vender como alternativa a pesquisas eleitorais tradicionais. A Polymarket respondeu que sua equipe 'imediatamente sinalizou essa atividade, investigou e bloqueou as contas de negociar'. A plataforma só retomou operações legais nos Estados Unidos em 2025, depois de comprar uma corretora licenciada pela CFTC (Commodity Futures Trading Commission), órgão que regula o mercado futuro americano. O episódio reacende a pergunta sobre o quanto de fiscalização esse tipo de mercado realmente tem, dentro e fora dos EUA.