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SegurançaIA31 de ago. de 2026, 20:57

Por que a IA pode complicar a vida de governos que usam hacking para espionar

Especialistas em criptografia debatem se a IA vai secar as vulnerabilidades que agências de segurança usam para invadir dispositivos, reacendendo a pressão por backdoors.

Por Elias Brandão · Analista de IA e ética

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O acordo tácito que sustenta a vigilância digital

Imagine um trato silencioso: em vez de pedir uma cópia da sua chave de casa, o Estado prefere contratar um serralheiro especializado em abrir fechaduras quando precisa entrar num imóvel sob investigação. É mais ou menos essa a lógica que rege, hoje, a relação entre governos e empresas de tecnologia. Em vez de exigir "portas dos fundos" (os chamados backdoors) embutidas em celulares e aplicativos de mensagem, agências de segurança compram ferramentas de invasão — como o GrayKey, usado para destravar iPhones, ou o Pegasus, do grupo NSO — que exploram falhas já existentes no software.

Esse equilíbrio incômodo é o pano de fundo de um debate levantado por Matthew Green, professor de criptografia da Universidade Johns Hopkins, e reproduzido pelo TechCrunch. A pergunta é simples de enunciar e complexa de responder: o que acontece quando a inteligência artificial torna essas falhas raras demais para sustentar esse arranjo?

Bugs em bom português: por que eles valem tanto

Toda peça de software tem defeitos — os tais "bugs". Alguns são inofensivos. Outros, chamados de vulnerabilidades, permitem que alguém de fora assuma o controle de um sistema sem permissão. É esse segundo tipo que abastece o mercado de ferramentas de hacking usadas por governos, sejam para investigar crimes, sejam para espionar opositores.

Green argumenta que a IA está ficando boa demais em caçar esses defeitos antes que sejam explorados, permitindo que empresas corrijam falhas em ritmo muito mais rápido do que hoje. Na prática, isso poderia secar a fonte de vulnerabilidades que sustenta o mercado de exploração — inclusive o uso legítimo por autoridades.

Nem todo mundo compra essa hipótese

Outros especialistas ouvidos pela reportagem torcem o nariz. Paolo Stagno, da Crowdfense, empresa que negocia falhas de segurança (os chamados "zero-days"), e Hamid Kashfi, fundador da DarkCell, ponderam que bugs simples podem até ficar mais escassos, mas os complexos continuam valendo ouro — e nem todo pesquisador que encontra uma falha se sente obrigado a reportá-la ao fabricante. Eva Galperin, da Electronic Frontier Foundation, também vê o lado ofensivo ainda em vantagem.

Os dois lados da moeda

Aqui mora a tensão central: se as vulnerabilidades realmente secarem, cresce a pressão política para que governos exijam backdoors diretamente dos fabricantes — a rota que hoje é evitada. Katie Moussouris, da Luta Security, estima que esse movimento pode ganhar força após as próximas eleições. O problema é que um backdoor não distingue bandido de cidadão comum: uma porta aberta para a polícia é, também, uma porta aberta para criminosos e governos autoritários. É o argumento que Green e outros pesquisadores já defenderam no estudo "Keys under Doormats", contrário a esse tipo de solução.

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