
Por que apps de namoro pedem reconhecimento facial para criar perfil
Tinder e outros apps miram perfis falsos gerados por IA com selfie em vídeo e, em alguns casos, leitura de íris — mas especialistas questionam os limites da vigilância.
Por Denise Sampaio · Repórter de Segurança
O que está mudando
Aplicativos de namoro estão tornando obrigatório provar, com o rosto, que existe uma pessoa real do outro lado do perfil. O Tinder, maior app de relacionamento do mundo, lançou em outubro de 2025 o recurso Face Check — vídeo-selfie com prova de vida e checagem 3D — e vem expandindo a exigência para contas já existentes nos Estados Unidos e no Reino Unido. Em parceria com a World ID, sistema de identidade digital da Tools for Humanity, empresa cofundada pelo CEO da OpenAI, Sam Altman, o app também testa verificação por leitura de íris, já ativa no Japão.
Por que agora
O gatilho é a facilidade de gerar fotos, vídeos e vozes falsos com inteligência artificial. Segundo o FBI, golpes do tipo romance scam já causaram mais de US$ 4 bilhões em prejuízo entre 2015 e 2025 nos Estados Unidos, e a Comissão Federal de Comércio americana (FTC) contabilizou US$ 1 bilhão só em 2025. Quase metade dos usuários de apps de namoro nos EUA diz já ter passado por algum tipo de fraude, e o Match Group, dono do Tinder, afirma que 98% das ações de moderação de conteúdo em 2025 miraram perfis falsos, golpes e spam.
Quem é afetado e o que fazer agora
Qualquer pessoa que crie ou já tenha perfil em apps como o Tinder pode ser convocada a passar pela verificação. Antes de aceitar, vale:
- Conferir se o pedido de selfie ou vídeo acontece dentro do próprio app, nunca por link externo;
- Checar a política de privacidade quanto à promessa de apagar o vídeo após a checagem, mantendo só um mapa facial criptografado;
- Desconfiar de matches que evitam chamada de vídeo mesmo depois de "verificados", sinal de possível conta comprometida.
Nem todo especialista está confortável com a solução. O professor Woodrow Hartzog chama reconhecimento facial de "a ferramenta de vigilância mais perigosa já criada", e a pesquisadora de segurança Katie Moussouris descreve parte dessas medidas como "teatro de segurança" — a verificação inicial não impede que a conta seja usada depois para golpes com conteúdo manipulado por IA.