
Por que carros elétricos apitam em baixa velocidade nas cidades
Sistemas de som artificial, os AVAS, tornaram-se obrigatórios em elétricos e híbridos para alertar pedestres, ciclistas e pessoas com deficiência visual sobre veículos silenciosos. Mas a fiscalização dessas regras varia muito entre países.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Quem já andou perto de um carro elétrico em baixa velocidade percebeu: existe um zumbido eletrônico saindo do veículo, mesmo sem motor a combustão para gerar ruído. Não é falha nem capricho de fabricante — é um sistema de segurança pensado para quem está fora do carro, não para quem está dentro dele.
O que é o AVAS
O Acoustic Vehicle Alerting System (AVAS) é o conjunto de alto-falantes externos que emite um som contínuo enquanto o carro roda em velocidades reduzidas, geralmente até a faixa de 20 a 30 km/h, dependendo da regulamentação local. Acima disso, o ruído de pneus e vento já é considerado suficiente para alertar quem está por perto, e o som artificial se desliga.
Cada montadora desenvolve uma identidade sonora própria, dentro de limites de frequência e intensidade — do zumbido eletrônico discreto a sons que imitam turbinas. Mas a lógica por trás é sempre a mesma: um carro elétrico em marcha lenta é quase inaudível, e isso é um risco real para quem depende do ouvido para atravessar a rua.
Por que isso importa para quem anda a pé
Estudos da NHTSA, a agência de segurança rodoviária dos Estados Unidos, mostraram maior probabilidade de acidentes envolvendo pedestres em manobras de carros elétricos e híbridos, justamente pelo silêncio do motor em baixa velocidade. O grupo mais afetado inclui ciclistas, crianças e pessoas com deficiência visual, que usam o som do trânsito como referência para se orientar. Não é exagero dizer que, sem esse alerta sonoro, a rua fica mais perigosa para quem não está dirigindo.
Regras diferentes, fiscalização desigual
Nos Estados Unidos, a norma da NHTSA obriga elétricos a emitir som de 47 a 67 decibéis até 19 mph (cerca de 30 km/h), com tom que varia conforme o carro acelera ou desacelera — para que uma pessoa cega consiga perceber a mudança de velocidade. A regra vale para todo veículo novo desde setembro de 2019 e a expectativa da agência era evitar milhares de ferimentos em pedestres por ano. Na Europa, o Regulamento nº 138 da UNECE cumpre papel semelhante.
No Brasil, a Resolução Contran nº 880/2021 tornou o AVAS obrigatório em todo elétrico e híbrido homologado no país, com ativação automática ao engatar marcha e som entre 56 e 75 decibéis — volume equivalente a uma conversa normal — até por volta de 20 km/h.
Quem garante que a regra é cumprida?
O ponto que fica em aberto é a fiscalização. Enquanto a homologação exige o sistema, cabe perguntar quem verifica se ele continua ativo com o tempo, se motoristas conseguem desligá-lo indevidamente e se cidades brasileiras têm capacidade de cobrar o cumprimento da norma nas ruas — não só na fábrica. Com a frota elétrica crescendo nos centros urbanos, o som artificial deixa de ser detalhe técnico e vira parte da infraestrutura de segurança viária, tanto quanto uma faixa de pedestre ou um semáforo sonoro.