
Por que o laptop de US$ 100 da OLPC nunca teve chance de decolar
O XO-1 prometia levar computadores baratos a crianças de países pobres, mas o custo real, a falta de infraestrutura escolar e a concorrência de netbooks comerciais enterraram o sonho de Nicholas Negroponte.
Por Bruno Vilela · Repórter de Gadgets
Uma promessa de US$ 100 que nunca se sustentou
Em 2005, no Fórum Econômico Mundial de Davos, o pesquisador do MIT Nicholas Negroponte apresentou o One Laptop Per Child (OLPC), projeto sem fins lucrativos que prometia distribuir laptops baratos e resistentes a crianças de países em desenvolvimento para reduzir a exclusão digital. O produto do projeto, o XO-1, chegou como um laptop robusto, de baixo consumo de energia e voltado a ambientes escolares precários. O número que deu nome à iniciativa, porém, nunca se confirmou: em 2006 a própria organização já projetava algo entre US$ 135 e US$ 140 por unidade, e o preço real acabou passando de US$ 200 já em 2010, mais que o dobro da meta original.
O hardware era o menor dos problemas
Como relembra o podcast Version History, do The Verge, ao analisar por que o laptop de US$ 100 da OLPC nunca teve chance de decolar, o XO-1 até acertava em várias decisões de design — era resistente, econômico e pensado para escolas sem infraestrutura elétrica estável. O problema é que Negroponte tratou a questão como se fosse puramente de engenharia. Faltou o que vem depois do hardware: treinamento de professores, suporte técnico, currículo adaptado à realidade local. Sem esse arranjo, o laptop virava um objeto interessante, mas isolado, dentro da sala de aula.
Compromissos que não vingaram e concorrência que sobrou
A lógica de negócio também não fechou. O modelo dependia de governos assinando pedidos em grande volume, mas Negroponte reconheceu depois que confundiu o entusiasmo diplomático — um aperto de mão com um chefe de Estado — com um pedido de compra assinado. Países que haviam demonstrado interesse recuaram ou reduziram drasticamente os pedidos. O Uruguai foi a exceção, tornando-se o primeiro país a fazer a adoção completa do XO-1 em suas escolas primárias. Enquanto isso, a Intel lançou o Classmate PC como concorrente direto, chegou a integrar brevemente o conselho da OLPC e depois saiu, em janeiro de 2008, em meio a atritos comerciais. No mesmo período, o boom dos netbooks comerciais — puxado pelo Eee PC da Asus — ofereceu ao mercado uma alternativa mais barata e mais fácil de vender do que o modelo filantrópico da OLPC.
O legado ficou nas ideias, não nas vendas
Estudos posteriores sobre o uso do XO-1, como os realizados no Peru, não encontraram efeitos significativos sobre o desempenho acadêmico dos alunos atendidos. A divisão de hardware da OLPC encerrou as atividades em 2014. Ainda assim, o projeto deixou marcas: popularizou a ideia de laptops ultraportáteis e baratos, pressionou a indústria a repensar custo e consumo de energia, e antecipou debates que hoje parecem óbvios — a de que tecnologia sem infraestrutura de apoio não educa por si só.