
Por que o robô mordomo humanoide ainda não chegou à sua casa
Apesar do hype em feiras como CES e IFA, robôs como o LG Cloid ainda dobram roupa devagar e não abrem uma tampa de detergente sozinhos. A promessa da 'casa sem trabalho' esbarra em bateria, custo e destreza.
Por Bruno Vilela · Repórter de Gadgets
O hype não bate com a demo
Toda feira de tecnologia recente parece ter seu robô humanoide de plantão prometendo virar seu mordomo particular. Na CES 2026, a vez foi da LG, sul-coreana dona de Zero Labor Home, sua visão de casa onde eletrodomésticos e um robô resolvem as tarefas domésticas sozinhos: apresentou o Cloid, um robô com dois braços de sete graus de liberdade cada e mãos de cinco dedos, capaz de dobrar roupa, organizar a geladeira e carregar a máquina de lavar. Parece o futuro que os filmes prometeram há décadas. Só que, na prática, a demonstração ao vivo mostrou algo bem mais modesto: movimentos lentos, deliberados, e uma tarefa simples — abrir uma tampa de detergente — que o robô simplesmente não conseguiu executar.
Rodas, não pernas
Uma escolha de design resume bem onde a indústria está: o Cloid se move sobre rodas, não pernas. É um compromisso prático, não falta de ambição. Construir um humanoide bípede que anda com equilíbrio humano em ambientes domésticos cheios de tapete, escada e criança correndo é um problema de engenharia gigantesco — e caro. Rodas resolvem locomoção plana com muito menos risco de o robô simplesmente cair durante uma tarefa. O preço dessa escolha é ficar preso a superfícies planas, algo que qualquer apartamento brasileiro real, com degraus e portas estreitas, expõe rapidamente.
Bateria, preço e o problema da escala
Segundo estimativas do mercado, a autonomia do Cloid fica na faixa de 6 a 8 horas — o suficiente para um turno de trabalho, não para operar o dia todo sem recarga. E a LG não confirmou preço nem data de disponibilidade; projeções apontam algo entre US$ 20 mil e US$ 40 mil, patamar de carro popular, não de eletrodoméstico. A empresa disse que está treinando centenas de unidades do Cloid em ambientes domésticos reais para desenvolver um "modelo de fundação" para robôs — o mesmo caminho que a IA generativa percorreu, só que aplicado a corpos físicos, que é ordens de magnitude mais difícil de escalar que texto ou imagem.
Vale o preço no Brasil?
A resposta curta é: nem chega a ser pergunta ainda, porque não há preço, não há data e não há garantia de que a versão comercial fará mais do que a demo capenga vista na CES. Comparado com o avanço vertiginoso de assistentes de voz e eletrodomésticos conectados — que já resolvem boa parte do problema de "casa que se cuida sozinha" por uma fração do custo — o robô humanoide de rodas ainda parece mais vitrine de feira do que produto. Até a LG resolver destreza fina, autonomia de bateria e, principalmente, preço, o sonho do mordomo robótico continua sendo, na melhor das hipóteses, um teaser de médio prazo.