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IA20 de set. de 2026, 18:01

Por que sua avó compartilha fake news? A culpa é mais da IA que da idade

Estudos mostram que idosos não são piores em identificar boatos — o que realmente mudou foi o custo de produzir desinformação em escala com inteligência artificial.

Por Elias Brandão · Analista de IA e ética

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O estereótipo da vovó ingênua

Existe uma piada recorrente sobre o parente mais velho que compartilha, sem checar, o áudio de zap alertando sobre chip em vacina. Mas o jornalista Rodrigo Almeida, em coluna publicada pelo Olhar Digital, cita um conjunto de estudos que colocam essa piada sob suspeita. Uma pesquisa de 2019 dos cientistas políticos Andrew Guess, Jonathan Nagler e Joshua Tucker, publicada no Journal of Experimental Psychology: General, encontrou 11 em cada 100 pessoas com mais de 65 anos compartilhando links falsos no Facebook — contra apenas 3 em cada 100 entre os mais jovens. O número existe, mas a explicação mais provável não é falta de capacidade cognitiva.

Em bom português: é lealdade, não burrice

Outro estudo, de dezembro de 2025, ouviu 2 mil americanos com mais de 60 anos e descobriu que cerca de dois terços checava a fonte de uma informação antes de acreditar nela — um comportamento mais cauteloso do que o estereótipo sugere. O que muda entre gerações, segundo os pesquisadores citados por Almeida, é menos a capacidade de distinguir verdade de mentira e mais a disposição de compartilhar um conteúdo que reforça uma visão política já formada. Em bom português: às vezes a vovó sabe que pode ser boato, e compartilha assim mesmo porque concorda com a mensagem.

O outro lado: o boato ficou industrial

Se a explicação não está só no leitor, está em quem produz o conteúdo — e aqui a IA generativa muda a escala do problema. No Brasil, a Polícia Federal já associa 42,5% dos casos de fraude financeira registrados em 2025 ao uso de ferramentas de inteligência artificial, com o uso de deepfake crescendo 830% entre 2024 e 2025. Prejuízos globais ligados a deepfakes já somam cerca de US$ 2 bilhões, com projeção de chegar a US$ 40 bilhões até 2027, segundo dados citados pela Forbes Brasil. Um exemplo concreto: um esquema de golpes que usou um deepfake do cantor Roberto Carlos já movimentou R$ 1,8 bilhão, segundo reportagem da revista Exame.

O que fica em aberto

A pergunta que a coluna deixa no ar — e que esta reportagem ainda não responde por completo — é quem deveria assumir a responsabilidade de conter esse volume: as plataformas que distribuem o conteúdo, as empresas de IA que baratearam sua produção, ou uma regulação que ainda não existe no Brasil para deepfakes usados em fraude financeira.

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