
Por que tratamos a IA como gente — e por que isso devia nos preocupar
Especialistas em psicologia humano-máquina explicam por que humanos dizem "por favor" a chatbots e discutem os riscos e benefícios de se relacionar emocionalmente com sistemas de IA.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
O instinto que não controlamos
Imagine cumprimentar um robô como se fosse um colega de trabalho. Foi exatamente o que aconteceu com uma repórter ao encontrar Gabe, um robô humanoide do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts): o gesto saiu automático, sem pensar. Essa reação, em bom português, é o retrato de um instinto que carregamos desde sempre — o de atribuir intenção, cuidado e até sentimento a qualquer coisa que pareça reagir a nós. Só que agora esse instinto está sendo testado em escala industrial, por chatbots que conversam, lembram e simulam empatia 24 horas por dia.
Quando a máquina parece se importar
Foto: reprodução/news.mit.edu
A socióloga Sherry Turkle, pesquisadora do MIT que estuda a relação entre humanos e tecnologia desde 1976, batizou esse fenômeno com um nome técnico: "relational artifact", ou artefato relacional — um objeto que se comporta de um jeito que nos faz sentir vistos, ouvidos e até amados, sem que exista, do outro lado, qualquer consciência real. Em suas palavras: "When we are drawn into even the most primitive exchanges with a relational artifact, we believe it cares for us. And we are wired to care for it in return" (quando somos atraídos até pelas trocas mais primitivas com um artefato relacional, acreditamos que ele se importa conosco. E somos programados, por natureza, para nos importarmos com ele de volta, em tradução livre).
O dado que comprova isso na prática: cerca de 70% das pessoas são educadas ao interagir com IA, e o uso de expressões como "por favor" e "obrigado" tende a aumentar conforme a conversa avança — mesmo sabendo, racionalmente, que estão falando com um software.
Os dois lados da moeda
Pat Pataranutaporn, pesquisador do MIT Media Lab que fundou o grupo de pesquisa Cyborg Psychology, se descreve como um "otimista crítico": reconhece utilidade em treinar entrevistas de emprego ou praticar habilidades específicas com um chatbot, desde que a ferramenta fique em seu devido lugar. O risco aparece quando essa relação extrapola — e o caso mais extremo já registrado foi a morte de um adolescente após interações com um chatbot da Character.AI, empresa de companheiros virtuais de IA.
Turkle resume a tensão com uma frase que funciona como regra de bolso: "stay in your lane, chatbot" (fique na sua pista, chatbot). Útil para treinar uma entrevista, problemático quando tenta substituir um pai, uma mãe ou um terapeuta. A conclusão do artigo é inquietante: mesmo as trocas mais banais com uma IA, repetidas todos os dias, podem ir corroendo, pouco a pouco, nossa desconfiança saudável em relação à tecnologia.