tech & talk
Ciência15 de out. de 2026, 08:58

Pra escala humana: a nuvem de 1.800 km que nasce todo dia em Marte

Mars Express, sonda da ESA, a Agência Espacial Europeia, flagrou uma nuvem gigante perto de um vulcão marciano que se forma sem poeira nem sal — um fenômeno nunca visto em atmosfera planetária, segundo estudo publicado na Nature Geoscience.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

Compartilhar

Pra escala humana

Pra escala humana: imagine uma nuvem que cobre uma distância quase duas vezes maior que o comprido do Reino Unido, se forma em poucos minutos toda manhã e some em poucas horas. É isso que a sonda Mars Express, da ESA, a Agência Espacial Europeia, vem observando sobre o vulcão marciano Arsia Mons — e o motivo por trás dela intrigou os cientistas.

O que é confirmado

Foto: reprodução/esa.int

A chamada Nuvem Alongada de Arsia Mons chega a medir até 1.800 quilômetros de comprimento e 150 km de largura, surgindo nas primeiras horas da manhã marciana sobre o vulcão extinto de 20 km de altura. O ciclo se repete durante a primavera e o verão do hemisfério sul de Marte: a nuvem nasce, cresce rapidamente e evapora em poucas horas.

O mecanismo físico por trás disso foi descrito em estudo liderado por Jorge Hernández-Bernal, do Laboratoire de Météorologie Dynamique, ligado ao CNRS e à Sorbonne Université, na França, publicado na revista científica Nature Geoscience em 7 de outubro de 2026. Segundo o estudo, quando os ventos marcianos encontram o Arsia Mons, o relevo do vulcão empurra bolsões de ar úmido para cima em poucos minutos. A temperatura despenca cerca de 30°C em dez minutos, e a umidade relativa dispara.

O que é hipótese

Foto: reprodução/phys.org

Aqui está a parte estranha: para reproduzir a nuvem em simulações, os pesquisadores precisaram incluir um processo chamado nucleação homogênea — quando o vapor de água congela direto em partículas de gelo, sem depender de poeira, sal ou qualquer outra partícula como ponto de partida. É um processo que existe nos livros de física, mas que, até agora, era tratado como teórico, algo que dificilmente aconteceria na natureza.

"Nunca vimos isso antes em uma atmosfera planetária. Foi totalmente inesperado", disse Hernández-Bernal. A comparação que ele usa é boa: é como se gotas de condensação aparecessem do nada no meio de um quarto, em vez de se formarem na superfície fria de uma janela.

Vale o adendo: a extensão da nuvem varia de observação para observação — uma imagem específica da Mars Express já registrou cerca de 980 km, abaixo do recorde de 1.800 km citado no estudo. Isso não contradiz a pesquisa, só mostra que o fenômeno é dinâmico, exigindo mais imagens para entender os limites reais do processo.

Por que isso importa

Se a nucleação homogênea realmente domina a formação dessa nuvem, isso muda o entendimento sobre como gelo se forma em atmosferas com pouca poeira — não só em Marte, mas potencialmente em outros mundos. Mais observações da Mars Express e de outras missões devem ajudar a confirmar, ou revisar, essa hipótese nos próximos ciclos sazonais marcianos.

marteesanasaastronomianuvens
Compartilhar