
Prefeitos dos EUA pedem mais transporte público com cidades em expansão
Em conferência da APTA em Chicago, prefeitos de Austin, Nashville e Oklahoma City contam como eleitores que antes rejeitavam taxas para o trânsito hoje votam a favor, pressionados pelo crescimento populacional e pelo congestionamento.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Quem nunca esperou meia hora no ponto de ônibus esperando que ele passe
Austin, Nashville e Oklahoma City têm um problema que qualquer morador de São Paulo, Fortaleza ou Goiânia reconhece de cara: a cidade cresceu mais rápido que o transporte público. Na conferência da American Public Transportation Association (APTA, entidade que reúne operadores e gestores de trânsito nos Estados Unidos), realizada em Chicago em outubro de 2026, os prefeitos Kirk Watson (Austin, Texas), Freddie O'Connell (Nashville, Tennessee) e David Holt (Oklahoma City) contaram a mesma história com sotaques diferentes: eleitores que décadas atrás rejeitaram taxas para financiar trânsito hoje votam a favor, porque sentiram o congestionamento na pele.
O que aconteceu, cidade por cidade
Foto: reprodução/aptapassengertransport.com
Em Austin, o Project Connect foi aprovado em 2024 depois de uma primeira tentativa rejeitada ainda em 2000. Watson defende que esperar só encarece a obra — e lembra que famílias que abrem mão do carro economizam entre 12 mil e 13 mil dólares por ano, dinheiro que ajuda a pagar o aluguel na cidade. Em Nashville, uma votação de 2018 fracassou, mas a de 2024 passou apoiada em quatro promessas simples: calçadas, sinalização, frequência e segurança. O'Connell resume a lógica com uma frase direta: "frequência é liberdade" — reduzir o intervalo entre ônibus de 30 para 15 minutos transformou o serviço em opção confiável, não última alternativa. Já Oklahoma City, que ganhou cerca de 250 mil moradores nas últimas três décadas e projeta outros 250 mil nos próximos 25 anos, se prepara para levar uma nova proposta às urnas em 2027.
Quanto custa e quem fiscaliza essa conta
Aqui entra a pergunta que todo contribuinte deveria fazer, nos EUA ou no Brasil: de onde vem o dinheiro e quem presta conta dele? Em Austin, o sistema de trânsito metropolitano é financiado por 1% de imposto sobre vendas desde 1985. Em Nashville, a saída foi um aumento de meio centavo no imposto sobre vendas aprovado por voto popular. Ou seja, são os próprios moradores que decidem — na urna — quanto estão dispostos a pagar, e isso cria um mecanismo de fiscalização direta: se o serviço não melhorar, a próxima votação pode fracassar de novo.
O paralelo brasileiro
A diferença central para cidades brasileiras que também inflam rápido — pense em Goiânia, Manaus ou regiões metropolitanas do Nordeste — é que nos EUA essas decisões de financiamento passam por referendo local, enquanto aqui o modelo de concessão e tarifa costuma ficar mais distante do voto direto do cidadão. O recado dos três prefeitos sun belt, no fim das contas, é simples: cidade que cresce sem trilho, faixa exclusiva ou frequência decente vira cidade parada no trânsito — em qualquer hemisfério.