
Prefeitos dos EUA veem moradia como epicentro da crise de custo de vida
Pesquisa da U.S. Conference of Mayors com 113 prefeitos americanos aponta a habitação como principal dor de cabeça dos moradores, com efeitos em despejos, saúde e orçamento das cidades.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
O que a pesquisa mostra
Se você mora em cidade grande e sente que o salário não fecha a conta no fim do mês, saiba que os prefeitos americanos estão vendo a mesma coisa de perto. Uma pesquisa da U.S. Conference of Mayors (USCM) — entidade que reúne prefeitos de cidades americanas com mais de 30 mil habitantes e funciona como uma espécie de termômetro nacional da gestão municipal — ouviu 113 prefeitos de 39 estados e Porto Rico, representando cerca de 34,1 milhões de moradores, entre 18 de agosto e 4 de setembro de 2026.
O resultado é quase unânime: 96% dos prefeitos dizem que seus moradores estão muito ou extremamente preocupados com o custo de vida, e 93% relatam alta nos preços ao longo do último ano. Aqui já cabe a pergunta que sempre fazemos: quem paga essa conta na ponta? Segundo o levantamento, 39% dos prefeitos afirmam que a crise piorou significativamente — não é só percepção, é tendência.
Moradia lidera, mas não é só ela
Entre as causas apontadas, a habitação aparece disparada na frente, citada por cerca de 96% dos prefeitos como o principal driver da crise de acessibilidade. Na sequência vêm alimentos (55%) e contas de energia (utilities), mencionadas por 40% dos gestores.
Todd Gloria, prefeito de San Diego e atual presidente da USCM, resumiu o problema: o aluguel é a despesa fixa que chega todo mês e não dá para negociar, sobrando cada vez menos para o resto. Ele também cutucou o governo federal, lembrando que Washington pode operar no vermelho, mas prefeituras não têm essa margem — e isso já está forçando cortes em bibliotecas e centros comunitários.
Efeito cascata e quem fiscaliza a resposta
Os números de impacto social preocupam: 56% dos prefeitos relatam aumento de despejos e situação de rua, e 31% veem mais moradores sem plano de saúde ou com cobertura insuficiente. Do lado das saídas, 77% dos prefeitos defendem ampliar o programa federal de vale-alimentação (SNAP) e mais da metade aposta em resolver tensões geopolíticas que pressionam o preço dos combustíveis.
Cidades como Filadélfia, Kansas City e Fresno já testam programas locais — caso do BenePhilly, que ajuda moradores a acessar benefícios sociais, e de fundos municipais de habitação. Fica a pergunta que interessa ao bolso do cidadão brasileiro que acompanha esse debate: quanto esses programas custam aos cofres municipais e quem audita se o dinheiro chega a quem precisa? A pesquisa da USCM não traz essa resposta — mas é a pergunta que qualquer prefeito, daqui ou dos EUA, deveria responder antes de anunciar a próxima solução.