
Premiê grego diz que governos lutam 'a batalha de ontem' contra a IA
Em entrevista franca em São Francisco, Kyriakos Mitsotakis admitiu que nenhum governo está preparado para a velocidade das mudanças que a IA vai provocar, da educação ao mercado de trabalho.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Uma confissão pouco comum vinda de um chefe de governo
Não é todo dia que um primeiro-ministro admite, em público, que está perdendo a corrida. Foi o que fez Kyriakos Mitsotakis, primeiro-ministro da Grécia, em conversa com a editora-chefe do TechCrunch, Connie Loizos, durante um evento em São Francisco na segunda-feira (22). Diante de cerca de 250 fundadores, investidores e executivos de tecnologia reunidos pela Endeavor Greece — organização sem fins lucrativos que apoia empreendedores de alto impacto em mercados emergentes —, Mitsotakis resumiu o dilema com uma frase direta: "às vezes sinto que estamos lutando a batalha de ontem".
A analogia vale a pena traduzir: é como reforçar as trincheiras de uma guerra que já mudou de terreno. Enquanto governos discutem regras pensadas para os problemas de ontem — como moderação de conteúdo em redes sociais —, a IA generativa já está criando desafios novos, mais rápidos e menos mapeados.
Foto: reprodução/techcrunch.com
Dos "companheiros digitais" ao desemprego estrutural
Mitsotakis citou preocupações concretas. Uma delas é o efeito psicológico de crianças crescendo com chatbots que simulam amizade ou namoro. Outra é o risco da acomodação intelectual: para ele, é da natureza humana usar atalhos, e estudantes recorrerão a chatbots para fazer tarefas escolares se isso for mais fácil. Mas o ponto mais contundente foi sobre emprego: o premiê disse que o deslocamento de postos de trabalho pela IA "é algo que vai acontecer", e que "nenhum governo e nenhuma sociedade está preparado para a velocidade com que isso vai acontecer".
Curiosamente, o mesmo Mitsotakis que soa alarmado também corteja ativamente o setor. A viagem à Califórnia incluiu visitas à Tesla e à gestora de venture capital Sequoia Capital, e a Grécia já roda um piloto educacional com a OpenAI para reduzir trabalho administrativo de professores, além de receber novos data centers de Microsoft e Amazon.
Os dois lados da desaceleração
Mitsotakis também endossou, mesmo que timidamente, os pedidos de alguns líderes de laboratórios de IA para desacelerar o desenvolvimento dos modelos mais avançados. Seu argumento: se as próprias empresas que constroem esses sistemas dizem não ter certeza total do que acontece internamente neles, cautela redobrada faz sentido. É a mesma tensão que atravessa o debate global sobre regulação de IA — de um lado, o temor de sufocar a inovação com regras apressadas; do outro, o risco de deixar tecnologias poderosas avançarem sem rede de proteção. A Grécia, aliás, já tomou uma decisão concreta nessa linha: a partir de janeiro, o país proíbe o uso de redes sociais por menores de 15 anos.