
Proteína de cascavel neutraliza veneno de cobra 10x melhor no teste
Pesquisadores da Universidade de Maryland isolaram proteínas do sangue de cascavéis que, em testes com camundongos, se mostraram até dez vezes mais potentes que um antiveneno comercial. O estudo ainda não passou por testes em humanos.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Um adulto de 70 kg precisaria de cerca de 392 miligramas da proteína testada para ter metade de chance de sobreviver a uma dose letal de veneno — esse é o cálculo que dá pra fazer a partir da dose eficaz (ED50) encontrada pelos pesquisadores: 5,6 mg por quilo de peso corporal, com margem de erro de 1,9 mg. Pra comparar, a mesma proteção via antiveneno comercial CroFab exige uma quantidade de proteína dez vezes maior. É esse o resultado que motivou o estudo publicado no fim de julho na revista científica PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences), uma das publicações revisadas por pares mais respeitadas dos Estados Unidos.
O que foi confirmado
Foto: reprodução/cmns.umd.edu
Pesquisadores da Universidade de Maryland, liderados pelo biólogo Sean B. Carroll, junto com Fiona Ukken e Yetunde Ayinuola, e em parceria com Elda Sánchez, do centro de pesquisa de toxinas naturais da Texas A&M University-Kingsville, estudaram as chamadas proteínas FETUA — presentes no sangue da cascavel-diamante-do-oeste (Crotalus atrox) e responsáveis por proteger o próprio animal contra seu veneno. Em testes de laboratório, essas proteínas inibiram enzimas do veneno que destroem colágeno e outras estruturas do corpo. Em testes com camundongos, a combinação de proteínas neutralizou não só o veneno da cascavel-diamante como o de outras espécies de cascavel e até de víboras evolutivamente distantes.
O que ainda é hipótese
Aqui vale separar o que já foi testado do que ainda é promessa: todo o experimento foi feito em laboratório e em camundongos, ao longo de 48 horas de observação. Não houve nenhum teste em humanos, e os próprios autores tratam essa etapa como perspectiva futura, não como próximo passo confirmado. Transformar uma proteína eficaz em camundongos num medicamento aprovado pra gente costuma levar anos — e boa parte das descobertas promissoras nessa fase nunca chega à farmácia.
Por que interessa
O antiveneno tradicional é caro de produzir, porque depende de imunizar cavalos ou outros animais com veneno de cobra. Uma alternativa baseada em proteínas presentes na própria cascavel, mais barata e potencialmente mais potente, teria efeito direto no custo de tratamento — inclusive no Brasil, onde acidentes ofídicos ainda matam por falta de acesso rápido ao soro.