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Ciência11 de set. de 2026, 20:00

Proteômica revela gergelim e moringa em tintas do Egito Antigo

Análise de proteínas em 28 amostras de 14 artefatos egípcios encontrou resíduos de sementes de gergelim e moringa em tintas e adesivos, plantas que os pesquisadores associam a um possível simbolismo religioso ligado ao deus Ptah.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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pra escala humana: imagine reconstituir a receita exata de uma tinta usada há 3.300 anos a partir de fragmentos microscópicos, alguns menores que um grão de arroz. Foi mais ou menos isso que uma equipe internacional de pesquisadores fez ao aplicar proteômica — a técnica de identificar proteínas por espectrometria de massa, a mesma usada em biologia molecular — a pinturas e adesivos do Egito Antigo.

O que foi confirmado

O estudo, liderado por Clara Granzotto, do Globe Institute da Universidade de Copenhague, e publicado na revista Science Advances, analisou 28 microamostras retiradas de 14 artefatos datados entre 1425 a.C. e 400 d.C. Os objetos vieram de acervos de museus como o British Museum, a Ny Carlsberg Glyptotek e o Museu de Arqueologia do Mediterrâneo e Oriente Próximo, em Estocolmo, e incluíam caixões de madeira pintados, cartonagem funerária, elementos de calcário e fragmentos de pinturas murais, entre eles os da célebre Tumba de Nebamun.

Combinando espectrometria de massa (nanoLC-MS/MS), espectroscopia no infravermelho (FTIR) e pirólise acoplada a cromatografia gasosa, os cientistas confirmaram que os egípcios usavam cola feita de colágeno animal — de gado, mas também de ovinos, caprinos, equinos e possivelmente antílopes selvagens — como aglutinante em boa parte das obras. Em um fragmento da Tumba de Nebamun, com cerca de 3.300 anos, também identificaram proteínas de ovo de galinha inteiro (clara e gema), indicado como ligante na tinta verde.

A novidade é a detecção, pela primeira vez de forma molecular, de proteínas de armazenamento de sementes de gergelim (quatro isoformas da globulina 11S) e de moringa (a albumina 2S, com 21 peptídeos correspondentes) em dois artefatos — um fragmento da própria Tumba de Nebamun e um caixão de madeira de período greco-romano, bem mais tardio. Como as sementes dessas plantas também produzem óleo, a equipe fez testes químicos complementares e encontrou um material rico em proteína com apenas traços de óleo — evidência de que o material usado era o resíduo sólido da prensagem das sementes (a chamada torta de sementes), e não o óleo puro.

O que ainda é hipótese

Aqui os pesquisadores são explícitos sobre o limite entre dado e interpretação. A moringa tinha associação simbólica com Ptah, divindade padroeira dos artesãos, referenciado em registros egípcios pelo epíteto "Ptah Sob Sua Árvore de Moringa". A equipe sugere que o uso do material derivado da moringa pode ter sido uma escolha deliberada dos artesãos, quase um gesto devocional para proteger ou consagrar a própria obra — mas essa leitura religiosa é apresentada como possibilidade, não conclusão fechada. O que a proteômica comprova é a presença molecular das proteínas nas camadas de tinta; o motivo pelo qual os artesãos escolheram esses materiais continua sendo debate entre arqueólogos e egiptólogos.

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