
'Pura insanidade': matemáticos vão levar anos para entender avanço da OpenAI
A OpenAI divulgou de surpresa centenas de resultados matemáticos inéditos, e mais de três dezenas de matemáticos consultados pelo The Verge ainda tentam entender o que foi realmente provado.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
Uma enxurrada de teoremas sem aviso prévio
Imagine chegar à biblioteca de uma universidade e encontrar, da noite para o dia, setecentos artigos científicos novos empilhados na mesa, sem ninguém para explicar direito o que está escrito ali. Foi mais ou menos esse o choque sentido pela comunidade matemática global no início de outubro, quando a OpenAI, empresa americana por trás do ChatGPT, divulgou de uma só vez 722 manuscritos relacionados a 372 problemas matemáticos antes não resolvidos.
O tamanho do pacote
Foto: reprodução/implicator.ai
Os resultados cobrem áreas como teoria dos números, geometria algébrica e topologia, e vieram de um modelo interno da OpenAI que ainda não foi lançado publicamente. Segundo a empresa, cerca de 4.000 problemas foram apresentados a esse modelo, e cada resultado consumiu em média três horas de computação equivalentes ao plano pago mais avançado do ChatGPT.
Mais de três dezenas de matemáticos ouvidos pelo site americano The Verge usaram termos como "staggering" (estarrecedor), "overwhelming" (avassalador), "unprecedented" (sem precedentes), "surreal" e até "pure insanity" (pura insanidade) para descrever o volume e a velocidade da divulgação. Em bom português: a sensação geral é de estar diante de algo grande demais para ser digerido de uma vez.
A verificação é que ainda não existe
Aqui está o ponto central do debate, e ele tem dois lados bem definidos. De um lado, a OpenAI apresenta o feito como prova de que a IA pode acelerar fronteiras do conhecimento que levariam anos para avançar por métodos tradicionais. Do outro, boa parte dos matemáticos consultados faz uma ressalva importante: dos 372 conjuntos de resultados, apenas 235 têm alguma página formalizada na linguagem Lean — um sistema que permite a um computador checar passo a passo se uma prova matemática está logicamente correta — e só 162 têm o resultado principal totalmente formalizado.
Isso significa que, para a maior parte do material, ainda não há garantia formal de que as provas realmente demonstram o que afirmam demonstrar. Como resumiu a reportagem, nem sempre é claro, à primeira vista, se a "prova" incluída de fato prova aquilo que o artigo diz provar.
O trabalho que vem agora
O consenso entre os especialistas é que entender o que foi publicado — e descobrir onde, nesse cenário em mutação, os próprios matemáticos se encaixam — pode levar anos de trabalho coletivo. A revisão por pares, processo tradicional pelo qual a ciência valida descobertas, não foi feita em escala equivalente à da divulgação, o que deixa a comunidade correndo atrás do próprio avanço anunciado pela empresa.