
Quanto lixo espacial está em órbita da Terra hoje, segundo a ESA
A ESA rastreia mais de 46 mil objetos e 17 mil toneladas de detritos ao redor da Terra. Entenda a síndrome de Kessler e como o Brasil ajuda a monitorar esse lixo orbital.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Imagine 17 mil toneladas de metal — o equivalente a mais de cem torres Eiffel — girando ao redor do planeta a quase 28 mil km/h. É essa a massa total de detritos que a Agência Espacial Europeia (ESA) contabiliza hoje em órbita da Terra. Segundo os dados mais recentes da agência, são mais de 46,4 mil objetos rastreados ativamente por redes de vigilância espacial.
O que está confirmado
A ESA mantém esse número atualizado com base em radares e telescópios que monitoram o céu. Além dos objetos já catalogados, a agência estima que existam cerca de 1,2 milhão de fragmentos entre 1 e 10 centímetros e mais de 50 mil objetos maiores que 10 centímetros — pedaços pequenos demais para rastreamento individual constante, mas grandes o suficiente para destruir um satélite em caso de colisão, dado o impacto em altíssima velocidade.
Dois eventos concretos ilustram o problema: em 2007, um teste antissatélite chinês destruiu o satélite Fengyun-1C e espalhou milhares de fragmentos; em 2009, os satélites Iridium 33 e Kosmos 2251 colidiram acidentalmente, multiplicando ainda mais os destroços em órbita baixa.
A hipótese: síndrome de Kessler
O conceito foi proposto em 1978 pelo físico da NASA Donald Kessler, ao lado de Burton Cour-Palais. A ideia central é um efeito cascata: cada colisão entre objetos gera novos fragmentos, que aumentam a chance de novas colisões, num ciclo que pode, em tese, tornar certas faixas de órbita perigosas demais para uso por décadas.
É importante marcar a diferença: a existência do lixo espacial e seu crescimento são fatos registrados; o colapso generalizado da órbita baixa por efeito cascata continua sendo um cenário de risco, não um evento já em curso. A própria ESA defende a remoção ativa de lixo espacial como medida preventiva, mesmo sem novos lançamentos.
O rastreamento feito no Brasil
O país participa do monitoramento orbital desde 2017, com um telescópio russo-brasileiro instalado no Observatório do Pico dos Dias, em Minas Gerais, fruto de parceria entre o Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA), a Agência Espacial Brasileira (AEB) e a agência russa Roscosmos. O equipamento consegue mapear entre 500 e 800 objetos por noite. Desde 2024, o Brasil também opera o sistema GSTT Orbit Guard, conduzido pelo Centro de Operações Espaciais da Força Aérea Brasileira em conjunto com o ITA.