
Quanto tempo uma cidade de 1 milhão de pessoas duraria na Lua? Pouco mais de um século
Estudo publicado na Frontiers in Space Technologies calcula que, mesmo no cenário mais otimista sobre reservas de água lunar, uma megalópole na Lua esgotaria os recursos hídricos em pouco mais de 100 anos.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Imagine toda a água de uma cidade do tamanho de São Paulo — mais de 1 milhão de habitantes — precisando vir de gelo escondido em crateras permanentemente sombreadas, nos polos da Lua, sem rios, chuva ou lençol freático de reposição. É esse o cenário que os astrônomos Martin Elvis, do Smithsonian Astrophysical Observatory, e Jonathan McDowell testaram em números. O resultado, publicado como artigo de opinião científica na revista Frontiers in Space Technologies, é um balde de água fria — literalmente — nos planos mais ambiciosos de colonização lunar.
O que é confirmado pelo estudo
Foto: reprodução/frontiersin.org
Os pesquisadores partiram de uma estimativa generosa de água na Lua: até 1 bilhão de toneladas, o equivalente a cerca de 400 mil piscinas olímpicas, presas principalmente em gelo nos polos. Considerando um consumo médio de 500 toneladas de água por pessoa (incluindo uso direto, agricultura e outras necessidades), uma cidade de 1 milhão de habitantes só seria viável por mais de um século se conseguisse reciclar água com 98% de eficiência — taxa equivalente à alcançada hoje na Estação Espacial Internacional (ISS).
Sem qualquer reciclagem, a mesma cidade esgotaria a água em apenas dois anos — prazo que Elvis classificou como "ridiculamente curto", já que nem daria tempo de construir a cidade inteira nesse período. Já povoados bem menores, como uma vila de mil pessoas ou uma cidade de 10 mil habitantes, poderiam se sustentar por vários séculos com o mesmo regime de reciclagem, simplesmente porque demandam menos água no total. Os autores também descartam a energia como fator limitante: os picos iluminados perto dos polos lunares permitiriam gerar até 3 gigawatts com painéis solares, recurso mais do que suficiente para operações de reciclagem e suporte à vida.
O que é hipótese e ainda está em aberto
Aqui mora a parte mais incerta da conta: a estimativa de 1 bilhão de toneladas é o cenário otimista. As estimativas mais aceitas atualmente apontam para algo em torno de 30 vezes menos água disponível — cerca de 33 milhões de toneladas. Nesse cenário mais realista, mesmo com reciclagem eficiente, uma cidade de 1 milhão de pessoas duraria apenas alguns anos antes de secar.
Os autores apontam três saídas possíveis, todas ainda especulativas: melhorar a taxa de reciclagem em cinco vezes ou mais além do padrão da ISS, importar água trazida de asteroides, ou descobrir reservas mais profundas no regolito lunar ainda não mapeadas. Sem nenhuma dessas rotas, a conclusão do estudo é direta: megalópoles lunares nos moldes imaginados pela ficção científica não são sustentáveis com o que se sabe hoje sobre os recursos hídricos da Lua. Vale lembrar que carbono, essencial pra produção de alimentos, é outro elemento praticamente inexistente em fontes acessíveis no solo lunar — mais uma restrição que o estudo cita, mas não aprofunda em números.