
Química revela por que pigmentos glow-in-the-dark somem com o tempo
Pesquisadores dos EUA estudam a fotoquímica de pigmentos fosforescentes usados em arte e moda para entender por que eles desbotam e como preservá-los em museus.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Imagine uma jaqueta de spandex rosa-choque, pintada à mão com tinta DayGlo em 1984, guardada décadas em uma reserva técnica de museu. Hoje ela ainda brilha sob luz UV, mas menos do que no dia em que saiu da passarela. É esse desbotamento silencioso — de peças de arte e moda que dependem de pigmentos fluorescentes e fosforescentes — que um grupo de pesquisadores nos Estados Unidos está tentando entender em nível molecular.
O que foi apresentado
O trabalho foi mostrado no encontro ACS Fall 2026, da American Chemical Society, realizado entre 23 e 27 de agosto no McCormick Place, em Chicago, dentro do simpósio "Chemistry Behind Art and Art Conservation". A apresentação, intitulada "Glow in the light & dark: Investigations of the photochemistry of emissive pigments used in art", é assinada por Sarah Schmidtke Sobeck, professora de química e decana de desenvolvimento docente do The College of Wooster, em parceria com Gregory Smith, cientista sênior de conservação do Indianapolis Museum of Art at Newfields. Também participaram a estudante de graduação Eleanor Fleming e a ex-aluna Georgia Hopps-Weber, formada em química e história da arte. A colaboração entre os dois pesquisadores começou há cerca de dez anos, em uma conferência sobre ciência do patrimônio cultural.
O que é confirmado
Os cientistas analisaram peças da coleção Stephen Sprouse do museu de Indianápolis — roupas de spandex e murais com pigmentos DayGlo de meados dos anos 1980 — além de amostras de lithopone, um pó pigmentário branco com propriedades fosforescentes, fornecidas pela DayGlo Color Corporation. Diferentemente dos corantes fluorescentes orgânicos, os pigmentos fosforescentes glow-in-the-dark são compostos inorgânicos à base de minerais, que absorvem luz e a devolvem depois como brilho, em vez de simplesmente refletir.
Dois achados centrais estão confirmados pelo estudo: os chamados optical brighteners — compostos usados para intensificar o brilho — degradam mais rápido do que as moléculas pigmentárias propriamente ditas, o que faz as cores parecerem mais escuras mesmo quando o pigmento original ainda está praticamente intacto. Além disso, a umidade prolongada em níveis altos pode causar tanto ou mais dano do que a exposição prolongada à luz ambiente — um fator até então subestimado na conservação desses materiais.
O que ainda é hipótese
Os pesquisadores ainda estão mapeando os mecanismos exatos de fotodegradação de cada tipo de pigmento e como diferentes condições de armazenamento — temperatura, umidade, tipo de luz — interagem entre si ao longo de décadas. A expectativa da equipe é que o conhecimento sirva tanto para orientar protocolos de armazenamento e exibição em museus quanto para ajudar a indústria a desenvolver pigmentos fosforescentes mais duráveis, com aplicações que vão de roupas de passarela a sinalização de segurança e faixas de pista de aeroporto.
Por que importa
Para os curadores, o desafio prático é grande: restaurar uma peça fluorescente exige comparar cores tanto sob luz visível quanto sob luz UV, enquanto o próprio pigmento continua mudando com o tempo. Entender a química por trás do brilho é o primeiro passo para que essas obras — da arte contemporânea à moda pop dos anos 1980 — continuem brilhando para as próximas gerações.