
Raspberry Pi trava upgrade de RAM por firmware e irrita makers
Desde 2024, bootloader do Raspberry Pi 5 e derivados bloqueia a troca do chip de memória RAM para coibir fraude na revenda, mas pune também quem só queria fazer upgrade ou reparo legítimo.
Por Bruno Vilela · Repórter de Gadgets
O upgrade que virou tijolo
Quem cresceu comprando placa-mãe e trocando pente de memória para dar sobrevida ao PC vai estranhar a notícia: o Raspberry Pi, o computador de placa única britânico que virou queridinho de makers, educadores e projetos de automação, passou a bloquear por firmware a troca do chip de memória RAM. Desde setembro de 2024 — mas só amplamente notado agora —, um bootloader atualizado passou a travar Raspberry Pi 5, Compute Module 5, Raspberry Pi 500 e 500+ caso identifique um chip LPDDR4X diferente do instalado de fábrica. O resultado prático é um erro de boot, sinalizado por oito piscadas do LED, em vez do sistema simplesmente subir com a nova capacidade.
Por que a trava existe
Segundo o engenheiro da Raspberry Pi identificado como PhilE, a medida não mira o maker que quer upgrade honesto, e sim um esquema de fraude: revendedores compravam unidades de menor capacidade, soldavam chips de memória de origem duvidosa — muitas vezes mais baratos e menos confiáveis — e revendiam a placa como se fosse a versão topo de linha, com garantia da fábrica embutida no preço. O firmware passou a checar o código de revisão contra o chip fisicamente instalado; qualquer divergência barra a inicialização, mesmo que o reparo tenha sido feito com boa-fé e peça idêntica de outra placa Raspberry Pi.
A reação não foi boa
A comunidade não engoliu fácil. Jeff Geerling, um dos nomes mais respeitados no ecossistema Pi, disse entender o argumento técnico sobre validação de timing de memória, mas discordou do método: em vez de travar geral, ele propôs um "warranty bit" — um flag de firmware que zeraria a garantia ao detectar modificação, sem impedir o boot. Assim, quem quisesse arriscar um upgrade por conta própria poderia fazê-lo, perdendo o suporte oficial, mas sem virar dono de um tijolo. Técnicos de assistência relatam ter que manter firmware anterior a setembro de 2024 e desativar atualizações automáticas só para continuar fazendo reparos legítimos.
Vale o preço no Brasil?
Aqui é onde a decisão pesa mais no bolso do consumidor brasileiro. Raspberry Pi já chega ao país com importação, impostos e frete embutidos, tornando cada real investido mais sensível — e o apelo de comprar a versão de entrada para upgradar depois, prática comum entre makers, deixa de existir. Se antes dava para começar com pouca memória e crescer com o projeto, agora o valor pago na primeira compra precisa já contemplar a capacidade final, sob risco de travar o equipamento numa eventual troca. A trava até faz sentido para conter fraude no mercado paralelo, mas transfere o ônus para quem nunca fraudou nada: o entusiasta que só queria dar uma sobrevida à própria placa.